×
ARTE — matilda — 5 de novembro de 2018

ARIEL NOBRE: DO SUICÍDIO À RECONCILIAÇÃO COM O SAGRADO

Conheça o artista que utiliza sua arte para ajudar na prevenção do suicídio de pessoas trans e espalhar amor

Preciso dizer que te amo. A frase está espalhada em diversos cantos da casa do artista visual Ariel Nobre, que faz questão de se apresentar como um homem trans vivo no país que mais mata pessoas trans.

Vindo da roça, da divisa entre Minas Gerais e Bahia, Ariel repete uma história não rara dentro da comunidade LGBTQI+: já morou em mais de 10 cidades diferentes e hoje busca na capital paulista um espaço de acolhimento que não encontrou em outros lugares.

A Matilda foi até a casa dele conversar um pouco sobre arte, amor e pertencimento:

 

Minhas últimas palavras”



O sentimento de “não pertencimento” não é algo particular do artista, é uma sensação coletiva de todos os corpos desviantes, que sofrem com a marginalização, o desemprego crônico, a solidão afetiva e a endemonização gerados por uma sociedade que teme tudo aquilo que rompe com os padrões por ela estabelecidos.

Na ânsia de trazer esses temas para a discussão, Ariel criou o projeto Preciso Dizer Que te Amo, campanha de sensibilização e prevenção do suicídio de pessoas trans, que se desdobrou em um documentário, no qual o autor faz um registro subjetivo desse processo e cria imagens afro e trans afirmativas.

“Preciso dizer que te amo, o tema da minha vida, surgiu num momento de morte. Há três anos eu sobrevivi a um suicídio porque eu lembrei de registrar minhas últimas palavras e desde então eu registro minhas últimas palavras que são Preciso Dizer Que Te Amo.”

Escrever suas últimas palavras se tornou para Ariel um ato de performance na qual ele ressignifica sua própria vida e se conecta com os seus semelhantes.

 

Reconciliação com o Sagrado



Nascido em uma família que é evangélica há duas gerações, tanto do lado da mãe quanto do pai, o sagrado sempre esteve presente na vida de Ariel Nobre, porém, ao se assumir homem trans, esse sagrado passou a lhe ser negado.



“Quando eu fui entrando em contato comigo mesmo, eu infelizmente não me senti parte desse território do sagrado e dessa possibilidade de me conhecer e me cuidar a partir do sagrado, e mesmo de comungar com as pessoas ao meu redor a partir do sagrado.”

 

É aqui que a arte assume um outro papel importante em sua vida. Suas principais obras, tanto “Preciso DIzer Que Te Amo” quanto “Via Crucis”, mostra fotográfica que faz uma releitura da Via Sacra de Jesus, são consideradas pelo autor como “arte sacra”.

 

“Porém, entretanto, todavia, toda vez que eu me olhava para dentro e me escutava, a vida fazia muito mais sentido. Então eu tive que negar esse sagrado para buscar um outro sagrado, um sagrado que me contemple, e aí eu fui construindo esse sagrado e hoje esse sagrado é a minha arte.”

 

Questionado sobre quem ele acreditava que Jesus realmente havia sido, essa foi a resposta:

“Quem Jesus realmente é? Não sei, eu não estive lá com ele há dois mil anos atrás. Só sei que, seja lá quem ele for, eu estarei bem próximo dele nos próximos quatro anos e eu estarei bem perto dele em muitos sentidos, e eu nunca estive tão próximo e vou estar cada vez mais próximo dele, ora clamando “Jesus”, ora sendo Jesus, porque nos próximos quatro a minha missão aqui é constranger e trazer Jesus para cá, trazer Jesus para as relações, trazer Jesus para os apoiadores de Bolsonaro, trazer Jesus para quem defende a família, lembrar de Jesus, lembrar do ‘Não Matarás’, lembrar do ‘Pai por que me abandonaste?’, lembrar que Jesus chorou, homem, chorou em público, Jesus chorou, esse Jesus, torturado, ressuscitado, então a minha missão nos próximos quatro anos é me reconciliar com Jesus e convocar Jesus nas interrelações pessoais”.

Ariel Nobre colabora com a Matilda nos meses de novembro e dezembro, ilustrando nossas redes sociais com a sua arte transgressora.