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Editorial maio — matilda — 24 de maio de 2018

WATATAKALU E A FORMAÇÃO DE UMA LIDERANÇA FEMINISTA INDÍGENA

Mulheres guardiãs da cultura também lutam por sua transformação

Filha do falecido cacique Pirakumã, Watatakalu Yawalapiti enfrenta uma contradição: ao mesmo tempo em que luta pela preservação da cultura e história de seu povo, também combate práticas e costumes machistas que estão enraizados na tradição.

Sua determinação se tornou fonte de inspiração para outras mulheres e hoje Watatakalu é reconhecida como uma liderança indígena em sua aldeia do alto Xingu. Nós da Matilda encontramos pessoalmente com ela para conhecer melhor sua trajetória e as dificuldades que enfrenta no contexto em que vive.

 

Feminismo Indígena

 

Watatakalu Yawalapiti, liderança indígena feminina

(Watatakalu Yawalapiti, liderança indígena feminina)

Após diversas batalhas defendendo os direitos das mulheres indígenas ao longo de toda a sua vida, Watatakalu se tornou uma referência e ajudou a criar a Casa das Mulheres na sua aldeia. “Em todas as aldeias alto xinguanas existe a Casa dos Homens que fica no centro do círculo da aldeia, mas nós não podemos usar elas, porque elas são exclusivas dos homens”, relata.   

Quando as mulheres precisavam fazer uma reunião para discutir algum assunto, elas se reuniam a céu aberto de manhãzinha ou tinham que esperar o sol baixar: “A gente sentia muita falta de um espaço nosso dentro da aldeia”. Em 2015 aconteceu um Encontro de Mulheres e não havia espaço grande o suficiente para recebê-las, foi quando decidiram que estava na hora de criar a primeira Casa das Mulheres de toda região.

Naquele momento, a união das mulheres indígenas já estava bastante consolidada, o que possibilitou que em 2016 elas iniciassem a construção. Mas, para chegar a esse ponto, Watata revela que foram anos de esforços coletivos, organizando rodas de conversas na aldeia sobre temas que muitas vezes eram considerados tabus, como o uso de camisinha, até que se fortaleceu empoderamento feminino.

 

O passado na aldeia

 

Watatakalu Yawalapiti relata sua vida

(Watatakalu Yawalapiti relata sua vida)

Ser filha de lideranças indígenas traçou o destino de Watatakalu desde a infância. Após a primeira menstruação, ela passou três anos em reclusão, período em que lhe eram transmitidas todos os costumes e tradições do seu povo: “Eu fiquei dos 11 aos 14 anos reclusa em um quartinho, só tendo contato com minha mãe, minha avó e meu avô”.  

Retornando para o convívio com a aldeia, ao participar de uma festividade tradicional, o Kuarup, Watata despertou os interesses de um garoto, que pediu sua mão em casamento a seus pais. Com 15 anos ela foi forçada a se casar com esse garoto por seus pais, que organizaram um Moitará, reunião entre diferentes aldeias indígenas, e realizaram o seu casamento sem que ela soubesse: “Foi o pior dia da minha vida”, diz.

Por três anos Watatakalu permaneceu casada com esse homem sem deixar que ele a tocasse e sem aceitá-lo como marido. Um dia ele tentou forçá-la e ela se defendeu com uma ponta de flecha que havia escondido em sua rede. Watata foi mandada de volta  para sua família, que teve que devolver todos os presentes recebidos em seu casamento como pagamento.

 

Mãe é quem dá oportunidade

 

Watatakalu e seu filho

(Watatakalu e seu filho)

Por ser filha de líderes e não ter aceitado o casamento arranjado por seus pais, outras indígenas da aldeia se sentiram mais fortalecidas para fazerem o mesmo. Mas essa não foi sua única atitude a influenciar positivamente a cultura de seu povo: “Eu observava muito essa questão da mulher solteira engravidar. As pessoas não falavam mais com ela”.

Em 2004 Watatakalu decidiu que adotaria uma dessas crianças que não eram aceitas pela comunidade. Sua família desaprovou a ideia, mas Watata seguiu com o plano mesmo assim. Ela arranjou uma doação de leite de amigos de seu pai e por 20 dias conseguiu cuidar de um bebê que seria entregue à morte, até que pediu ajuda para sua mãe, quem cuidou da criança no final.

 

“Hoje essa criança tem 14 anos e é meu irmão, não meu filho. Mas eu fui mãe dele por um tempo, porque mãe é quem dá oportunidade e eu dei a oportunidade para ele, graças a mim que ele está vivo.”

 

Apesar das dificuldades enfrentadas, sua iniciativa modificou a forma como as pessoas viam a questão: “Muitas pessoas começaram a adotar e há 14 anos que a gente faz esses trabalhinhos [de incentivo à adoção], conversando com parentes, indo na CASAI [Casa de Saúde Indígena], deixando a criança com a pessoa [que quer adotar] três ou quatro dias para ver se ela não vai devolver”.

Os esforços de Watatakalu fortalecem o seu discurso de que as mulheres e mães é que são as mantenedoras da identidade do seu povo: “Nós é que somos as guardiãs da nossa cultura, porque somos nós que educamos os nossos filhos, não são os homens, porque eles ‘não tem tempo’. Quem faz a flechinha é o pai, mas quem tem que pedir ‘Óh, você tem que fazer’ é a mãe. É a mãe que cuida, é a mãe que pinta, é a mãe que mantém o cabelo, é a mãe que cuida da casa, tudo é a mãe. Então a gente tem esse direito, de brigar pelo o que a gente quer”.