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artes plásticas — matilda — 11 de maio de 2018

JOANA COCCARELLI E A MATERNIDADE ANCORADA NA LIBERDADE

A artista mostra como o relacionamento com os filhos enriquece quando a mãe se enxerga como facilitadora.

Joana Coccarelli precisa fazer muitas coisas para viver. Ganha a vida trabalhando como artista plástica, professora de história da arte para famílias, jornalista e marketing. “Faço muita coisa, se eu fizer uma coisa só eu morro”. Mas de todas as coisas que Joana faz, talvez a mais bonita e espontânea seja a urgência de viver, e viver livre. É essa liberdade que a permite ser tudo isso e mais um pouco. Mãe de Micaela, que atualmente tem sete anos, Joana imprime seu estilo de vida no relacionamento com a filha.

 

“Mãe é facilitadora, não é dona. Eu me sinto uma facilitadora dela com o mundo, de acordo com o mundo que ela parece querer”

 

A convite da Matilda, Joana é “Ilustre do Mês” e colabora desenvolvendo quatro colagens sobre maternidade. Ao longo de maio, publicaremos trabalhos da artista plástica, todos permeados por situações nem sempre faladas sobre a temática. E foi exatamente isso que chamou a atenção de Joana. “Eu tenho uma forma própria de ser, e a Matilda também tem uma forma muito própria de ser. Só posso honrar esse convite de um lugar que está dizendo outra coisa. Dentro dessa minha forma muito crítica de ver a maternidade, eu não vou ser uma aberração, eu vou estar entre outros que são completamente fora da curva”, conta.

 

 

Joana começou as colagens há dez anos, apenas como um hobby. “Era uma forma de entender o que estava acontecendo comigo. Eu recorro à arte para isso. Muitas vezes eu vejo o que fiz, e entendo o momento que estou vivendo de uma forma mais subjetiva”. Aos poucos, o que era um processo de diálogo consigo mesma se tornou também uma atividade profissional. Mas, nem por isso, as colagens deixaram de expressar o íntimo de Joana. “Eu consigo imprimir toda a cor que queria ver no mundo, todas as ideias que são absurdas. Sou uma pessoa muito objetiva, muito do mundo concreto. E aí eu tenho isso (as colagens), que eu acho que é o meu grande escape, meu sonho. É a minha parte inconsciente vindo”.

 

Joana conta que muitas vezes suas colagens não querem dizer nada. “Você não tem que entender arte, você tem que sentir. A função da arte não é uma coisa absoluta. Você pode não sentir nada e está tudo certo. É isso. É livre. A arte é livre, você se liberta dos seus fantasmas, você se salva”.

 

 

A liberdade com que Joana vê o papel da arte na sociedade também colabora para a sua visão de maternidade. A artista plástica  diz ser essencial enxergar a criança como pessoa, e não como uma extensão da mãe. “Temos que parar com essa história de que a mãe é a dona da criança porque isso é perigosíssimo. Filho não é projeto de produto. É importante a gente entender que, por mais neném que a criança seja, ela é alguém diferente de você, e é importante que essa criança sempre seja contemplada no que ela é”, afirma.

 

Ser mãe se tornou uma vontade para Joana durante o relacionamento com Rodrigo, pai de Mica. “Talvez se eu não tivesse encontrado ele, eu não teria sido mãe, porque isso não era um projeto meu, era um projeto que existia com ele”. Ela também avisou os pais que a guarda da menina seria compartilhada com eles e o mundo. “Eu queria eles comigo, e eles estão até hoje”.

 

Quando Mica tinha 1 ano e dois meses, Rodrigo descobriu um câncer no cérebro e faleceu em uma semana. O luto foi avassalador, mas a ideia de maternidade coletiva nunca foi deixada de lado por Joana. Os pais e amigos foram essenciais nesse momento. “Eu fiquei impossibilitada de fazer o meu melhor algumas vezes. Mas meus pais estavam lá e eu tive tempo para mim. Isso foi importante porque você está criando alguém mas também se criando. O filho não é só daquela mãe ou pai, ele é do mundo”.

 

 

A visão do mundo de Joana tem muita influência da relação aberta que teve com os pais desde sempre. “Eu fui criada no feminismo lá nos anos 1970. Tenho um irmão e lá em casa meu pai e minha mãe falavam: então, homem chora e mulher goza”. Em 2012, quando a Marcha das Vadias chegou ao Brasil, Joana levou sua filha ao primeiro encontro do grupo. Em 2016, Joana também levou Mica ao protesto na ALERJ, quando uma menina de 16 anos foi vítima de um estupro coletivo. Mas tudo isso sempre foi muito natural da parte de Joana “Eu não faço dela uma feminista, ela já olha para mim e vê como uma mulher pode existir melhor”, completa.

 

Outro ponto destacado por Joana é a importância de mostrar para Micaela o valor da individualidade. “Nem sempre incluo a Mica no meu rolê. Acho importante que ela entenda que a mamãe vai levá-la quando puder, mas terão momentos que ela vai ficar sozinha”.

 

O respeito de Joana pela individualidade e liberdade reflete diretamente na sua forma de ver e se relacionar não apenas com Micaela, mas com o mundo. Ela faz questão de entender os seus limites como mãe, e isso fica ainda mais claro quando questionada sobre quem aprende mais na relação das duas. ‘Eu não posso responder por ela, né? Só por mim”.

 

No vídeo, Joana fala mais sobre seu processo criativo e relacionamento com a filha.