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COMUNICAÇÃO — matilda — 12 de janeiro de 2018

GENTES: REPRESENTATIVIDADE ATRAVÉS DA INTIMIDADE

Confira nossa matéria especial sobre a representatividade na publicidade.

Vivemos em um país muito extenso e muito diverso. São mais de 200 milhões de habitantes de diferentes etnias, diferentes religiões, diferentes culturas, diferentes sexualidades, diferentes identidades de gênero, diferentes origens, diferentes corpos, diferentes idades, diferentes orientações políticas… Uma infinidade de singularidades, o que torna o Brasil um dos lugares mais ricos no quesito humano.

 

Essas diferenças não deveriam ser motivo de exclusão e desigualdade, mas o preconceito e a intolerância àquilo que não se encaixa nos padrões estabelecidos ainda são problemas que enfrentamos diariamente. A publicidade, como formadora de opinião e criadora de conteúdo, também possui uma função social e não pode ficar alheia a essa questão: precisa se reinventar, questionando estereótipos e almejando, de alguma maneira, a inclusão.

 

Se prender a velhas formas gera uma comunicação engessada, que não consegue tocar o seu interlocutor, nem entender suas necessidades. Não à toa, segundo pesquisa realizada pelo Instituto Locomotiva, 76% dos brasileiros acreditam que a publicidade deveria representar melhor a diversidade da população.¹ Sinal de uma geração mais informada e conectada, que anseia por mudanças na forma como as marcas se dirigem aos consumidores.

 

Conscientes dessa urgência, nós da Matilda.my criamos o GENTES, iniciativa na qual entrevistamos e damos voz a diferentes personagens, que possuem pouco ou nenhum espaço dentro da publicidade habitual. Sem impor nossos posicionamentos e expectativas, em cada encontro procuramos aquilo que as pessoas podem nos oferecer de mais sincero, sua intimidade.

 

 

Ainda segundo estudo do Instituto Locomotiva, 103 milhões de brasileiros não se identificam com as propagandas que vêem na TV, dado que se reflete nos depoimentos que ouvimos, onde a grande maioria dos entrevistados afirmaram que a televisão “não mostra as pessoas como elas são”.

 

Analisando outros dados, fica fácil de entender porque isso acontece: segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua de 2016 do IBGE, divulgada em novembro do ano passado, 54,9% da população se autodeclara preta ou parda, e apenas 44,2% se autodeclara branca.² Porém, apenas 24% dos comerciais possuíam protagonistas pretos ou pardos, segundo estudo realizado pela agência Heads Propaganda em parceria com a ONU Mulheres.³

 

Distorções da realidade também acontecem com as representações da maternidade e de estruturas tradicionais que têm se transformado como a família. Em pesquisa realizada pela ESPM Media Lab, 60% das mães não se vêem fielmente retratadas nas propagandas, devido a grande idealização feita em torno do tema pela publicidade tradicional e meios de comunição.⁴ E, apesar de o número de casamentos homoafetivos aumentar mais do que os heteroafetivos, 15,7% entre 2014 e 2015, segundo dados divulgados no último censo do IBGE sobre o tema, ainda é difícil encontrar marcas que arrisquem retratar essa realidade.⁵

Esses dados ilustram a carência da publicidade tradicional de se aproximar da vida dos consumidores e fazer uma coisa bem simples: ouvi-los e conhecer suas histórias e vivências. A Matilda.My buscou, e ainda busca, romper com com esse vício da comunicação. Seja nas ruas ou na casa dos entrevistados, nossa premissa é estar sempre de ouvidos bem abertos, mesmo que o que eles tenham a nos dizer não se transforme em um slogan de campanha “desconstruída”.

 

 

E nesse um ano de investigação foram muitas as vidas que cruzaram o nosso caminho: saímos às ruas para perguntar a opinião das pessoas sobre publicidade, conversamos com imigrantes, indígenas, carroceiros, crianças, artistas de rua, descobrimos os medos de cada um, abordamos temas como a depressão, a realidade das LGBTs, das pessoas negras, donas de casa, assistentes de limpeza, cozinheiras, ativistas, atrizes… foram tantas vozes e tantos aprendizados que é difícil sintetizá-los em um único texto.

Apesar de estarmos felizes com os nossos resultados até aqui, sabemos que ainda temos um longo caminho a trilhar e muitas outras GENTES para conhecer e ouvir. A Matilda.my agradece aos parceiros e amigos que colaboraram com nosso trabalho para que ele fosse possível e convidamos a todos a prestigiarem nossas matérias e o conteúdo produzido nessa experiência. Seguiremos nessa empreitada, que também é nosso sonho, de construir uma outra forma de se fazer publicidade e comunicação, pois acreditamos que a diversidade é a única maneira de se contar uma boa história.

 

 

¹ Brasileiros esperam mais representatividade da propaganda, Meio & Mensagem.

² População chega a 205,5 milhões, com menos brancos e mais pardos e pretos, Agência IBGE Noticias.

³ Promotoria de Direitos Humanos questiona representatividade dos negros na publicidade, Portal de Notícias do Ministério Público do Estado de São Paulo.

Propagandas não refletem realidade das mães, indica pesquisa, Agência Patrícia Galvão.

Casamento gay no Brasil completa 4 anos de regulamentação; leia histórias, G1.