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afrofuturismo — matilda — 22 de agosto de 2018

CRESPO, LOGO EXISTO

Como jovens estão resgatando sua ancestralidade através dos seus cabelos crespos e cacheados

Parafraseando Rincon Sapiência, faço questão de botar no meu texto que pretas e pretos estão se armando e se amando. Feito fitas presas no topo de cabeças, cada textura contida em um cabelo crespo revela não apenas a história da pessoa que o tem, mas também de como a cultura de um dos povos mais importantes ainda resiste. Cabelo crespo não é apenas a continuação de alguém, mas uma das mudanças genéticas para a sobrevivência mais bonitas que existe.

 

Características

 

De um modo geral, o cabelo humano possui 4 categorias de curvaturas: a 1 são os cabelos lisos, a 2 são os ondulados, a 3 são os cacheados e a 4 são os crespos. Vale lembrar que uma pessoa pode ter várias categorias de curvatura na mesma cabeça. Enquanto o fio liso é feito um “canudo” sendo bem redondo ou oval, o fio crespo é achatado feito uma fita. Fora isso, ele possui uma textura mais puxada para ziguezague do que de mola, como o cacheado.

Tipos de curvaturas. Todos os direitos reservados.

O visagista, colorista, formado no método desenvolvido pelo Philip Hallawell e especialista em cabelos crespos e cacheados, Wendel Melo explica: “Essa característica de fita faz com que ele seja mais frágil e poroso. A porosidade que ele tem faz com que a oleosidade natural produzida não chegue uniforme até as pontas, então ele tende a ser mais ressecado. Essa textura de ziguezague faz com que a reflexão da luz na superfície do fio seja menor, então é um fio que tem um pouco menos de brilho, mas nem sempre quer dizer que ele está ressecado, é só uma característica própria dele”, conta.

 

Genética de proteção

 

A tipologia do cabelo crespo não existe por um acaso, ele possui as suas características por questão de proteção. Existem estudos comprovados que os primeiros homens do continente africano desenvolveram essa curvatura com o passar do tempo devido às altas temperaturas locais, fora que crescendo para cima e para os lados, o cabelo forma uma espécie de capacete para a proteção da cabeça da pessoa.

“Uma outra característica é a maneira como ele se organiza em volta da cabeça, porque ele não é um fio que dá muito tamanho de comprimento longo, mas sim dá volume. Conforme ele vai crescendo e por ser um fio crespo, ele vai mais pra cima e pra fora do que para baixo”, acrescenta Wendel.

 

Versatilidade e ancestralidade

 

Por ter bastante aderência, o fio crespo possui uma enorme versatilidade, permitindo diversas possibilidades de penteados. As tranças, por exemplo, surgiram ainda no Egito antigo, mas um tempo depois, ainda na África, elas simbolizavam status social, qual região o indivíduo pertencia, situação civil, entre tantas outras coisas, e o mesmo vale para os famosos turbantes. “Já são mais de 5 mil anos de história que já se tem registro. Então de lá pra cá, são muitos penteados e técnicas que foram criados e com cada vez mais aceitação, nós vamos descobrindo”, revela Wendel.

 

Liberdade

 

Por conta do padrão eurocêntrico e pela colonização, os cabelos crespos e cacheados ainda encontram barreiras estéticas impostas pela sociedade.

Voltando um pouco no tempo, precisamos lembrar que quando um negro era escravizado, nada o pertencia, inclusive seu cabelo. Como forma de castigo, os escravos tinham seus cabelos cortados ou precisavam ficar bem presos e domados. Talvez seja por isso que ainda temos a cultura de pessoas que possuem os fios lisos darem opiniões ou até tocar em um cabelo crespo sem a permissão da outra pessoa.

Há histórias que relatam o uso das tranças nagôs – tranças enraizadas que fazem desenhos no couro cabeludo – para servir como mapa, a fim de guiar os escravos para os quilombos. As escravas faziam esses penteados nas crianças, porém só há relatos concretos dessa ação na Colômbia. É difícil de analisar a veracidade de contos dessa época, por conta do apagamento histórico que o povo negro sofreu. Na tese Poética Del Peinado Afrocolombiano (pág 119), a autora aborda melhor o tema.

Trança nagô. Todos os direitos reservados.

Transição e aceitação

 

De três anos pra cá, vem acontecendo no Brasil um movimento muito forte de transição capilar, que nada mais é do que abandonar as químicas que mudam a forma dos fios para deixá-los crescer naturalmente.

Esse movimento tem sido tão intenso que está transcendendo barreiras geográficas, inspirando principalmente mulheres de países africanos lusófonos (língua portuguesa como principal). “Ainda que sejam países onde a maioria é negra e crespa, o mundo todo é influenciado pelo ideal de cabelo liso e essa volta dos cabelos naturais das brasileiras tem sido muito propagada nos países africanos”, conta Wendel.

Por meio da internet, jovens têm mostrado a aceitação que eles vêm tendo em relação aos seus cabelos. Pensando nisso, convidamos 6 microinfluencers de cabelos crespos e com diferentes penteados, que estão ligados ao movimento negro nas mídias sociais, para falarem sobre amor próprio através do cabelo. As fotos têm como referência o afrofuturismo, movimento que se baseia no resgate da ancestralidade para a construção de um futuro crespo e afrocentrado.

 

Matheus Pasquarelli

 

“Vivi um longo processo de achar a minha verdadeira característica e identidade. Meu cabelo me representa muito, ele traz essa imagem forte que é realmente todo esse processo de aceitação que eu passei e de amor próprio, ele me representa de uma forma única e me torna único. Além de resgatar a minha ancestralidade, eu vejo que com o trabalho que tenho feito tenho inspirado muitos homens e mulheres também, e tenho me tornado referência na questão estética, de ser como é. É você enfrentar tudo o que tem que enfrentar, sair na rua todos os dias e, às vezes, até ser motivo de piada, mas ver que isso está motivando outras pessoas tem sido algo positivo pra mim”.

 

Luyara de Oliveira

 

“Já coloquei cabelo, tirei, trancei, deixei crescer… Eu acho que os mesmos olhares que me marginalizavam quando eu tinha black, continuam os mesmos comigo careca, porque acredito que o racismo que está nas pessoas as impedem de ver beleza na nossa versatilidade. Eu me redescubro a cada vez que eu mudo de cabelo, então se eu pinto ele me descubro de alguma forma, se eu tranço também sinto algo novo sobre meus ancestrais. Então acredito que ter o cabelo crespo é resgatar quem você é para depois demonstrar isso exteriormente através do seu cabelo”.

 

Weslley Baiano

 

Hoje a minha relação com o meu cabelo é de muito amor, porque eu consigo transformar ele do jeito que eu quero. Acho que sem ele, como quando eu raspo, me sinto meio abalado, ainda mais eu que sou leonino e a gente tem uma coisa com o cabelo. A minha mãe já tinha o cabelo cacheado e eu queria que ele fosse assim e não crespo, então eu passava guanidina só pra soltar na raiz, aí ficava cacheadinho e eu gostava. Mas eu nunca deixei ele liso mesmo. Na escola eu fui quase um dos primeiros a assumir o cabelo crespo, tanto que eu tinha um cortezinho quadrado, só que eu sentia o racismo muito forte. Mas toda vez que eu toco no meu cabelo e que eu faço alguma coisa diferente, como um penteado, eu me sinto mais conectado à minha diáspora.

 

Stefanine Ngideka

 

Eu passei por todo o processo de transição capilar e hoje é uma relação de amor, tanto que basicamente toda a expressão da minha personalidade é voltada para o cabelo. Hoje eu consigo me ver muito forte como mulher negra por conta disso. Até quando eu faço trança e tudo mais, o cabelo é boa parte de quem eu sou, então resgata muito a minha ancestralidade. Pra ter o cabelo crespo ou cacheado é importante dar o primeiro passo, ver se gosta e se não gostar não é um grande problema, porque a aceitação é um processo. Daí pra frente é ter paciência e muito amor.

 

Maria Luiza

 

“Em um momento mais calmo e tranquilo, eu nem mexo no cabelo, mas normalmente eu gosto muito de trançar ele, então às vezes eu fico até 20 horas arrumando o cabelo. Quando eu estou de dread ou trança eu me sinto tão poderosa que nada me puxa pra baixo, nem se puxarem pelo meu cabelo, rs. Eu amo dread, amo trança, só que agora que eu estou deixando ele ficar totalmente enrolado. As pessoas me tratam diferente, sim, quando eu não estou com ele liso de chapinha, porque quanto mais “embraquecido” seu cabelo for, mais você vai ser aceita”.

 

Cauê (Kaka Ousado)

 

Quando eu comecei a fazer os dreads, eu me encontrei, porque a estética combinou bastante comigo e também tem uma coisa de cultivo. Antes eu mudava toda hora, e quando você tem o dread, você vai cultivando, ele vai crescendo e mudando. É uma parada que meio que não tem fim e eu acho isso muito louco! É como se você amadurecesse conforme fosse uma evolução pessoal a partir do crescimento do dread. Por mais que pra minha família que é negra seja normal eu ter os dreads, tem lugares que eu entro de dread e é um tabu muito grande, porque é um “cabelo de preto” e “preto não pode ter o cabelo grande”. Então o meu cabelo é um símbolo de resistência.