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— matilda — 3 de abril de 2018

CORPO, ARTE E RESISTÊNCIA: 5 PERFORMERS QUE QUEBRAM PADRÕES

Conversamos com diferentes artistas que utilizam a arte como ferramenta de resistência

Poucas coisas têm um poder de subversão tão grande quanto a arte e a Performance é um exemplo disso. Utilizando diversas linguagens, como música, dança e teatro, o ato performático tem o poder de transmitir desconforto e gerar questionamentos através da imagem.

 

No último mês de março, nós da Matilda.my conversamos com cinco diferentes performers que utilizam seu corpo como palco para uma arte genuína, para além da discussão de performance de gênero. Veja abaixo um pouco da história e do trabalho desses artistas que são verdadeiros agentes da transformação.

 

Nina Crenshaw

 

 

Hoje em dia a Arte Drag passa por uma popularização, atraindo novos adeptos graças ao programa americano RuPaul’s Drag Race e artistas como Pabllo Vittar, Gloria Groove e Lia Clark. Fugindo do mainstream, Nina Crenshaw, drag de Lucas de Lima Barbosa, jovem de apenas 22 anos, definida por ele como “expressão superlativa de seu lado afeminado”, é um exemplo de como essa arte glamurosa pode se fundir com a vida e existir mesmo longe dos holofotes.

 

Seu nome é uma homenagem a Nina Simone, cantora que se tornou referência para a artista após ouvir a música “Ain’t got no”. “E Crenshaw é o sobrenome de Kimberlé Crenshaw, um escritora do feminismo interseccional, que tem bastante a ver com o que eu acredito, com o que eu quero que seja a Nina”, explica.

 

A primeira vez que Lucas se montou foi em sua formatura do Ensino Médio, onde Nina foi a oradora da turma: “Todos os pais da escola estavam ‘passados’, todo mundo rindo, mas eu estava ali vivendo o meu momento. Eu falei não só pela minha turma, mas falei também da importância de estar ocupando aquele espaço enquanto drag, quebrando os paradigmas. Foi maravilhoso”, conta.

 

 

Apesar da drag ainda estar “em construção”, Nina já sabe que rumos seguir: “Eu não quero ser uma drag que se restringe a palco, não quero ser uma drag que se restringe a só se apresentar, eu quero ser uma drag que traz um pensamento crítico, algo mais parecido com o que a Lorelay faz, só que voltado para a minha vivência”.

 

Combater o racismo e discutir as questões que dizem respeito à população negra é uma das prioridades de Nina, atitude que se reflete em seu nome e nas artistas que a inspiram, como Beyoncè, Janelle Monáe e Grace Jones. Você pode acompanhar as atividades de Nina Crenshaw através de sua conta no Instagram, @lovelylucaas.

 

Cabronloloh

 

 

“É o medo que eu procuro”, essa foi a explicação dada por Cabronloloh quando perguntamos que sentimento ele busca despertar nas pessoas quando sai na rua maquiado de palhaço. Com apenas 21 anos, o cozinheiro Isaac Lohan é o artista que, nas horas vagas, dá vida ao personagem que pode ser encontrado não só no Instagram através da conta @Cabronloloh, mas também na noite paulistana.

 

Tudo começou quando Isaac ganhou um conjunto de batons coloridos e decidiu utilizá-los no dia do seu aniversário: “Eu comecei a me maquiar e quando vi tinha feito uma make de palhaço”, conta. A experimentação foi tão bem recebida por seus amigos, principalmente os que não se encaixavam nos padrões (“as estranhas”, como Cabron as definiu), que o cozinheiro resolveu seguir se maquiando.

 

 

Sua aparição em festas geralmente gera desconforto, mesmo naquelas ditas “desconstruídas” e voltadas para o público LGBTQI+: “as pessoas só gostam de ver a gente assim quando estamos em cima de um palco e eles estão lá, batendo palma e falando que é divertido, sabe? Mas quando eles vêem alguém vivendo assim, é só mais um estranho, é só mais um idiota, é só alguém que tá pagando um mico”, desabafa.

 

Mas os olhares de desaprovação que recebe, julgando a sua aparência e imagem, não intimidam Isaac. Pelo contrário, esse efeito de quebra com a normalidade que gera questionamentos é justamente o que o leva a performar enquanto Cabron: “Eu gosto disso, de chegar lá nas festas de moda, toda maquiada feia, toda mulambenta, de chinelo… eles falam: ‘O que que ela está fazendo aqui?’ e eu respondo: ‘Ué, bi, o mesmo que você!’”.

 

Normalmente as pessoas que sentem medo são aquelas que, se não estivessem com medo, estariam debochando de mim e das pessoas que estão comigo. Estariam me ignorando ou me menosprezando por estar ali. Então, que sintam medo mesmo, porque eu estou cada vez mais presente nos espaços delas e elas vão ter que me aceitar!”

 

Leonardo Paixão

 

 

Em passagem por São Paulo para a apresentação da peça “Le Circo de La Drag”, Leonardo Paixão (Facebook e Instagram) foi outro performer entrevistado por nós da Matilda.my. “Sou de Guaçuí, do interior do Espírito Santo, uma cidade super pequenininha”, revela após um longo suspiro quando pedimos para que se apresentasse.

 

O suspiro talvez tenha vindo por lembrar de toda sua trajetória, que não é pouca e começou aos 14 anos, quando saiu do interior e viajou para Vitória — a capital capixaba, depois para Niterói, Rio Janeiro, e, mais tarde, Austrália. Depois de dois anos vivendo e trabalhando no exterior como ator, sentiu a necessidade de retornar: “Não bastava ser artista lá, porque eu ia falar o que se precisava falar para quem?” explica.

 

 

Leonardo mora atualmente no Rio de Janeiro, mas é em Porto Alegre, cidade onde também já morou, que ele idealizou e desenvolve o trabalho “O Corpo Emagrecido”. O projeto ainda não estreou e o artista segue fazendo pesquisa e desenvolvendo a performance, que tem como tema “um corpo gordo envolvido pela magreza externa e não estabelecida em uma sociedade obesa”.

 

A questão do “corpo gordo”, como ele define, não aparece apenas nessa performance, mas em outros trabalhos do artista. Em “Le Circo de la Drag”, por exemplo, Leo conta que esse foi um dos motivos para Juracy de Oliveira, o diretor da peça, tê-lo convidado para fazer parte do projeto: “O meu trabalho de corpo realmente tem um diferencial. Ainda mais sendo um corpo gordo com esse tipo de movimento, isso chamou muito a atenção dele [Juracy]”.

 

 

“A pessoa tem que entender que é um corpo gordo, acho que falta isso. A gente é muito hipócrita, a gente vive numa sociedade muito hipócrita. ‘Ah, eu não sou gordo’… Não, eu sou gordo! Esse é meu lugar, esse é o meu corpo!”

 

Para Leonardo, somos massacrados por uma sociedade que impõe um corpo magro através das novelas, revistas, filmes, publicidade etc. O performer faz ressalvas sobre questões de saúde, dizendo que devemos estar atentos aos sinais que o corpo dá, mas não  considera positivo quando as pessoas emagrecem por pressão social: “A gordofobia e o preconceito acontecem quando você não respeita o outro”.

 

 Marquesa Amapola

 

 

Impulsionando a arte burlesca em São Paulo, a Marquesa Amapola já é uma figura tão consolidada no meio que poucas pessoas sabem que o nome da artista por trás da personagem é Aline Marques. “Até a minha mãe me chama de Marquesa. Já era, não tem mais jeito”, brinca.

 

Formada em moda, Aline trabalhou por cinco anos nessa área até se sentir sufocada pelo cotidiano do escritório: “Eu fui ficando louca com essa vida muito padrão, que não tem muito a ver comigo. Eu fui ficando doente e até perceber que era algo de fundo emocional, demorou muito tempo”, revela.

 

No paralelo, ela também ajudava a produzir a festa ¡VENGA-VENGA!, na qual trabalhava como “porta”. Quando chegou no limite, Aline decidiu deixar o trabalho na área de moda, ao mesmo tempo que oportunidades surgiam no universo artístico: “Quem faz a ¡VENGA-VENGA! é o meu irmão e o meu cunhado, e quando eles foram tocar em um festival de verão em Salvador eles disseram: ‘Aline, a gente quer te levar, mas você precisa montar uma performance!’”

 

 

Nesse processo de mudança de vida, Aline conheceu a artista Clóris Fontainebleau e foi assim que a arte burlesca entrou em sua vida: “Eu vi a Clóris dançando burlesco e comecei a fazer aulas particulares com ela, em duas semanas eu já estava me apresentando. Aí eu nunca mais parei”, conta.

 

De lá para cá, já se passaram três anos e hoje Aline se dedica e vive só do burlesco, que para ela é arte de empoderamento e resistência, não é “só tirar a roupa” como muitos pensam: “A cada peça que eu tirava para as pessoas verem, eu tinha que me ver, tinha que me aceitar, eu tinha que gostar do que eu estava vendo, senão eu não conseguia convencer e trazer a mensagem”, revela.

 


“Aí eu fui gostando de cada pedacinho, me vendo, me reconhecendo. Até que eu entendi que esse é o meu corpo e que ele é incrível do jeito que ele é, e que todos os corpos são incríveis do jeito que eles são.”

 

Atualmente, a artista trabalha fazendo shows e também produzindo o de outros artistas burlescos no Cabaret da Cecília, próximo a estação Santa Cecília do metrô de São Paulo, além de ajudar na organização de eventos como o “Yes, nós temos burlesco!”, festival internacional que acontece no Rio de Janeiro.

 

Com a intenção de levar a outras mulheres a discussão do empoderamento feminino através da ressignificação da sensualidade, Aline também organiza o workshop Chá da Marquesa, onde ela conversa com os participantes sobre a arte burlesca e busca aflorar a sensualidade de cada um: “Eu não posso ensinar ninguém a ser sensual, a sensualidade está dentro de cada um, é só uma questão de colocar isso para fora”, explica.

 

Os workshops contam também com uma performance da artista com uma oficina de pastie, espécie de adesivo giratório que as artistas burlescas utilizam para tapar os mamilos em suas apresentações. Você pode acompanhar as atividades da Marquesa Amapola através da sua página no Facebook, Instagram, Tumblr e também pelo canal no Youtube.

 

Priscila Rezende

 

Graduada em Artes Visuais pela Escola Guignard – UEMG, Priscila Rezende utiliza sua arte como ferramenta de denúncia, combatendo o racismo e outros preconceitos tão enraizados na sociedade. Sua primeira performance, chamada “Laços”, ainda não tinha como foco principal essa questão, mas já abordava o desconforto que as pessoas sentiam com a sua imagem.

 

 

A artista conta que desde os 19 anos ela já tinha piercings e tatuagens, inclusive piercings na bochecha, coisa que não era muito comum em Belo Horizonte naquela época, o que despertava olhares de julgamento por onde passava e até conflitos na família: “O meu progenitor é evangélico e não gostava dessas coisas. Passei por situações extremas com ele, pelo fato dele não aceitar a forma como eu lido com o meu corpo”, conta.

 

Em “Laços”, uma body piercing fazia 14 perfurações na performer, em pontos diferentes, prendendo argolas, que eram transpassadas por fitas vermelhas e amarradas ao espaço da apresentação: “Uma das coisa que eu queria colocar nesse trabalho é essa questão da dor, mas não só a dor física, mas muito mais uma dor que é psicológica e emocional, que temos que enfrentar por situações que surgem quando nos colocamos no mundo da forma que somos”.


“Certas coisas como colocar um piercing ou fazer uma tatuagem são escolhas, mas algumas coisa não são uma escolha. Eu ser uma mulher negra não é uma escolha.”

 

O tema do racismo se torna mais candente em suas performances seguintes, como na “Bombril”, na qual a artista colocava em questão o preconceito contra o cabelo crespo das pessoas negras. Na performance, Priscila lavava panelas de metal com o próprio cabelo, vestindo roupas que faziam referência ao período da escravidão, evidenciando as raízes históricas dessa opressão.

 

Priscila conta que as pessoas não a aceitavam quando decidiu parar de alisar o cabelo: “Quando eu tinha lá pelos 18 anos, decidi parar de alisar o cabelo. Não alisar o cabelo é uma escolha, mas eu ter o cabelo crespo não é uma escolha, eu sou assim. A gente se perceber como a gente é e simplesmente escolher continuar a ser como a gente é já é muito impactante para muita gente”.

 


“Em trabalhos nos quais a imagem é determinante, a gente não se vê. A gente não se vê nas propagandas publicitárias, sabe?”

 

Na performance “Vem… para ser infeliz”, o questionamento à imagem criada pela sociedade sobre as pessoas negras também é o tema central: “Eu peguei essa imagem da globeleza, que é o exemplo mais extremo dessa hipersexualização e cobri o meu corpo com palavras que já ouvi e expressam essa questão, como ‘mulata’, ‘mulata sargentelli’, ‘mulata violão’ e outras palavras que as mulheres negras costumam ouvir”.

 

Em sua mais recente criação, apresentada no dia 17 de março no Sesc 24 de maio, como resultado do seu período de residência na Central Saint Martins, Priscila também abordava a questão do racismo, formando um desenho do mapa de Minas Gerais com cruzes que faziam referência a extração de ouro e minérios realizada com mão de obra escravizada. Foram utilizadas 2.888 peças e Priscila levou cerca de cinco horas para concluir a performance. Acompanhe as atividades da artista através de sua página no Facebook e Instagram.

 

Das mais diferentes formas, todos os performers entrevistados mostram, através da arte, como é possível tirar as pessoas de suas zonas de conforto, fazê-las repensar seus próprios preconceitos e instigá-las a recriar a realidade, sem cair no conformismo e aceitação de tudo que já está estabelecido. A arte muda as pessoas, mas só as GENTES mudam o mundo.