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DIVERSIDADE — matilda — 14 de junho de 2018

ALEXYA SALVADOR E A MATERNIDADE POR VOCAÇÃO

Conversamos com a professora e pastora Alexya sobre como é ser uma mãe trans

Alexya Salvador Maternidade por vocação

Alexya Salvador, professora e pastora da Igreja da Comunidade Metropolitana, nasceu e foi criada em Mariporã, uma cidade da região metropolitana de São Paulo, mas que conserva traços de uma típica cidade interiorana. Em sua infância, ela não imaginava os rumos que sua vida tomaria no futuro, iniciando sua transição de gênero apenas mais tarde, com 28 anos.

Dentre as inúmeras batalhas para se afirmar enquanto mulher numa sociedade que impõe uma série de padrões ao gênero feminino, Alexya também tinha o desejo de ser mãe, mas sabia que realizar esse sonho não seria fácil e exigiria dela novos enfrentamentos com o conservadorismo e preconceitos alheios.

Inúmeras mães adotam os seus filhos, inúmeras mães não possuem útero, e muitas pessoas que não querem ser mães são obrigadas a gerar pela impossibilidade de fazer um aborto e abandonam a criança logo após o nascimento. Dizer que mães são apenas as pessoas que geram um novo ser, além de ser uma afirmação reducionista, também é preconceito.

Se contrapondo a essa visão biologicista e capacitista, Alexya rebate: “Eu acho que maternidade não é uma condição da mulher em si, acho que a maternidade é uma escolha, é uma vocação, não é toda mulher que tem vocação para ser mãe como não é toda mulher que tem vocação para ser professora”.

Eu fui criada para não ser mãe, a biologia disse que eu não seria mãe, a religião disse que eu não seria mãe, a minha família disse que eu não seria mãe e para todos esses elementos eu disse ‘Não, eu vou ser mãe sim!’ e hoje tem um papel que diz lá que eu sou a mãe da Ana Maria e que eu sou a mãe do Gabriel, eu sou mãe, por escolha.

 

Gestação Diferenciada

 

As mães que adotam seus filhos também passam por processos que se assemelham à espera e preparação do período de gestação de um bebê, segundo Alexya. No caso das mulheres trans, esses procedimentos são ainda mais angustiantes devido a todas as dificuldades burocráticas impostas aos LGBTs para realizar a adoção.

Para ser habilitada no Cadastro Nacional de Adoção, Alexya conta que a psicóloga que a atendeu pediu que ela retornasse para uma segunda consulta e disse: “Eu preciso entender, porque tem 20 e poucos anos que eu entrevisto casais pretendentes à adoção e é a primeira vez que uma mulher trans senta na minha cadeira”.

Perplexa com a incerteza da psicóloga, ela respondeu: “Doutora, o que você quer ouvir de mim? Eu já respondi tudo o que você me perguntou, eu quero ser mãe, eu quero ter o meu filho, eu quero formar a minha família, eu não tenho algo novo para te falar”. Apesar das exigências excepcionais, a pastora conseguiu sua permissão para adotar, passando para uma nova etapa de espera.

Gabriel, o primeiro filho que adotou com Roberto, seu marido, veio de um abrigo de Mariporã e seu processo de adoção demorou quase um ano. Sobre esse período, ela fala: “é uma gestação, porque você prepara o quarto, monta um enxoval, conta para as pessoas que está grávida. É uma gravidez, mas de repente uma gravidez não nos padrões que a cisgeneridade entende”.

Ana Maria, uma das filhas de Alexya e Roberto

Ana Maria, uma das filhas de Alexya e Roberto

Ana Maria, a segunda filha do casal, foi adotada em Jaboatão dos Guararapes, em Pernambuco, o que tornou o período de espera ainda mais intenso: “A Ana, eu viajei por quase quatro horas dentro de um avião numa expectativa doida em ir para Pernambuco, descer lá em Recife e poder abraçá-la e esse nascimento acontecer de maneira efetiva”.

Como todas as mães que adotam, da etapa de conhecer a criança até a efetivação da adoção, Alexya experienciou uma forma de gestação: “Quando a gente chegou na porta daquele abrigo que eu sabia que a Ana estava lá dentro, que eles abriram aqueles portões, te dá um… você passa mal, você transpira, dói o corpo todo, é uma gestação de uma maneira diferenciada”.

 

Discriminação e acolhimento

 

Gabriel, o primeiro filho de Alexya e Roberto.

Gabriel, o primeiro filho de Alexya e Roberto.

O preconceito com sua família vai para além do fato de Alexya ser trans. Seus dois filhos também enfrentam a discriminação: Gabriel é garoto com deficiência e Ana Maria é uma garota trans, assim como a mãe. Ambos encontram na família acolhimento e um espaço propício para o seu desenvolvimento saudável.

Evidenciando o despreparo da sociedade para lidar com seus filhos, Alexya relembra de um caso ocorrido quando estava adotando Gabriel: “Uma mulher do abrigo, uma funcionária teve a capacidade de olhar um dia para mim e falar ‘Nossa, você pode escolher e você vai escolher justo o doente?’, na verdade ela usou um outro termo pior, eu falei ‘Sim, é o ‘doente’ é o meu filho’, e respondi ‘Na verdade o doente é você’”.

A pastora conta com orgulho que quando levou seu filho para a escola pela primeira vez, ele fez questão de segurá-la pela mão e apresentá-la para todos os funcionários. “Ele pega na minha mão na rua, ele me beija, ele não tem problema nenhum com isso”, completa.

No caso de Ana Maria, a criança estava prestes a ser mandada para a adoção internacional, por não encontrar nenhuma família que quisesse adotá-la no Brasil e que soubesse lidar com o fato de ser trans, até Alexya aparecer.

Empolgada com a perspectiva de proporcionar para sua filha uma infância diferente da sua, Alexya comenta sobre os casais que recusaram Ana: “na verdade eles não sabem o que perderam, então o único lugar do mundo era aqui do nosso lado, era debaixo das nossas asas, era para ser como tinha que ser”.   

 

Família

 

Alexya com seu marido Roberto e seus filhos, Gabriel e Ana Maria

Alexya com seu marido Roberto e seus filhos, Gabriel e Ana Maria

Sem dar importância às críticas e ataques feitos pela internet, Alexya não exita em se posicionar: “As pessoas insistem em dizer que a minha família não é uma família, eles acham que é tudo, menos uma família. Eu vou mostrar para elas, e procuro mostrar todos os dias que não, que a minha família é uma família sim”.

Lutando contra todas as formas de opressão, a pastora possui um conceito de família inclusivo e não discriminatório: “Eu gosto muito de defender a família, seja ela dois homens, duas mulheres, um homem, uma mulher, a avó que cuida do seu neto, o irmão mais velho que cuida do seu irmão, famílias são laços de pessoas que se amam, acabou, the end”.