Tenha fé porque até no lixão nasce flor”, diz a música dos Racionais Mc’s, e isso não poderia ser mais verdadeiro. Neste mês de agosto, nós da Matilda descobrimos que não apenas flores nascem no lixão, mas que há muita vida, muita esperança e muita luta envolvida no processo de coleta de resíduos.

Tratados como pessoas invisíveis e ignorados pela maioria, os catadores e catadoras cumprem um papel importantíssimo, porém pouco valorizado: tiram das ruas o lixo descartado. Essas pessoas, que estão à margem da sociedade de consumo, e que contraditoriamente lidam com os resíduos gerados pelo consumismo, são um retrato da desigualdade que existe no país que produz 78,3 milhões de toneladas de lixo por ano, e de como faltam políticas públicas e de inclusão para esse setor.

Esse brasileiros são GENTES como nós, têm sonhos, desejos, opiniões, sensibilidades e muitas histórias para contar, basta estar disposto a ouvir, e foi isso que nós da Matilda fizemos.
Com ouvidos, corações e mentes bem abertos, conversamos com catadores da cidade de São Paulo durante o mês de agosto, e saímos transformados da experiência. Aprendemos muito, e uma das lições que nunca esqueceremos foi a catadora Fabiana Silva: “o mundo precisa mudar, e precisa mudar rápido”.

 

Alendino Nunes, 34 anos

“Faz uns 6 anos que eu puxo carroça. Eu tinha família, perdi tudo por causa do crack, essa é a verdade, vim para a rua e hoje estou puxando a carrocinha pra me manter.

O povo hoje em dia não está nem comprando, nem jogando fora, e não está nem gastando, porque hoje não está tendo. Uns quatro, cinco anos atrás, carroceiro ganhava bem, vivia bem. O povo não está tendo como gastar, está se mantendo ali, sobrevivendo. Tá difícil, porque o crime te oferece mais dinheiro do que puxando uma carroça. “

Jurandir Alves, 46 anos

“Ando limpo, cabelo cortado, barba feita. Minha relação com as pessoas é um bom dia, um boa tarde, muito obrigado, educação total. Nem todos respondem.

Meu maior sonho é arrumar um emprego bom, e o dia perfeito é quando eu ganho uma moedinha a mais e chego em casa alegre, sem ninguém bagunçar minha vida.”

 

Fabiana Silva, 39 anos

“Tem uns que olha normal, olha. Tem uns que cumprimenta, tem uns que não. Tem uns que, quando vê a gente com a carroça passando no farol, fecha o vidro. A maioria faz isso, no farol, fecha o vidro quando vê a gente passando. Acho que pensa que vai pedir, né? Só que eu não peço nada para ninguém, não. Tem uns que ainda critica a gente, você acredita? Eu não sei o porquê. Que a gente não está fazendo nada de errado, nada de ruim, a gente tá é ajudando a população, a sociedade, tirando a sujeira da rua”.

José Anchieta, 47 anos

“Faz tempo que trabalho como catador, viu, doze anos. Sou de Pernambuco, Recife. Vim para São Paulo, trabalhei numa firma aí e depois comecei a puxar carroça. A firma acabou o contrato, mandou todo mundo embora. Serviço está difícil, aí tem que catar, vender e ganhar dinheiro para o feijão e o arroz.

Meu sonho era arrumar um sítio, morar numa chácara, trabalhar de caseiro. Plantar milho, feijão, abóbora, tudo que precisa no roçado, eu ia fazer isso daí. Eu gosto da roça, né?”