Sonhos, valores e humanidade. Hoje em dia, as pessoas sentem a necessidade de serem representadas pela publicidade de uma maneira mais verdadeira, que se integre ao universo particular de cada um. É com essa visão que criamos o projeto das ilustrações da Matilda.my, para transmitir arte e poesia para a vida das pessoas, quebrando a forma fria como as marcas se comunicam com o público. O que queremos é encontrar caminhos para uma nova forma de fazer comunicação, destacando pessoas e sentimentos.

Nina Coimbra é a primeira colaboradora e também a idealizadora dessa proposta, e colaborou com suas lindas ilustrações ao longo deste ano. Mas… quem é Nina Coimbra? Agora trazemos a própria artista para vocês, para falar de sua vida, de seus projetos e suas opiniões sobre como a política, arte e publicidade podem ser ferramentas de transgressão para a humanidade.

Com vocês, Nina. 😉

(…) Acredito que ter nascido numa cidade como Brasília tenha me influenciado bastante.  Viver no Plano Piloto é uma experiência que eu acho que todo mundo deveria ter.  Tem um ar de utopia modernista, cidade florestal; meio capital, meio interior.  A cidade é uma obra de arte e não acho que tenha um artista brasiliense que não diga que a arquitetura e dinâmica da cidade não tenham o influenciado profundamente.

Além da influência estética, a cidade é também um local de efervescência política.  Como uma grande parte da população trabalha na Esplanada, as pessoas aqui tendem a ser mais politizadas e em qualquer mesa de bar se discute política como eu nunca vi em nenhuma outra cidade do mundo.

Em sua trajetória, Nina se aproximou também do mundo da publicidade, e reflete sobre a necessidade de uma mudança urgente na forma como as marcas se relacionam com o público.

É bobo achar que mesmo não sendo conscientemente alinhada com o discurso publicitário, a publicidade não faça parte da nossa formação de identidade e opinião. A partir do momento que assumimos esse papel da publicidade é que podemos mudar o discurso nela que afeta tanto a gente.  Por que não reverter os valores e fazer com que ela tenha um impacto positivo sobre a sociedade? É nesse sentido que acho que a publicidade, assim como a arte e a política, são ferramentas de transgressão.  Infelizmente, tanto a política quanto a publicidade são instituições “falidas”, que pouco representam os verdadeiros anseios, sonhos e valores da população.  Daí a importância da arte.

As grandes marcas deveriam sacar que, graças à internet, a situação ambiental e política do mundo, as pessoas estão mais atentas ao que as marcas representam de fato. A semiótica está intrinsecamente relacionada com a comunicação e as gerações X e Z buscam marcas que representam também seus valores.  Algumas marcas tentam fazer isso de uma forma superficial, mas acredito que há também uma relação que as pessoas têm com a verdade. Parece que a verdade está em voga. Ainda bem.

Mas as transformações não são necessárias apenas no universo publicitário. Como mulher, Nina não deixa de se posicionar contra o machismo e é bem firme nesse ponto.

Não entendo porque as pessoas têm tanto medo dessa palavra, desse termo.  Será medo de um mundo mais igualitário? Machismo também é cruel com os homens, a definição que a nossa sociedade dá para a masculinidade é muito estreita e opressora.  Assumo ser feminista não porque odeio homens,  queimo sutiãs ou sou alguém que busca o conflito, e sim como uma pessoa que compreendeu, e muitas vezes sentiu na pele, que o mundo não tem sido justo com as mulheres e isso precisa mudar. A maneira como o patriarcado está embrenhado em nossa cultura e cotidiano é muito, muito profunda.  O que podemos fazer é nos observar com amor e tentar mudar as coisas a partir do nosso cotidiano. A publicidade pode ajudar nesse sentido, representando a mulher empoderada em suas propagandas, no lugar de outros arquétipos onde a mulher está objetificada ou enfraquecida.  A forma como meu discurso feminista se dá no meu próprio trabalho é clara. Se arte é uma expressão do meu ser, com certeza entre outras narrativas que me representam, o fato de eu ser mulher estará presente.

As pautas indígenas também são um tema que despertam o anseio por mudanças de Nina.

Poucas pessoas têm real dimensão das atrocidades cometidas por ruralistas e o Estado contra os povos originários do Brasil.  Gostaria de poder ser uma força a ser somada na luta pelos seus direitos e proteção de suas terras. Índios não só merecem preservar sua cultura como também fazem o favor para todos nós em preservar a natureza que é atacada a todo momento por interesses de grandes fazendeiros e corporações.  Achar que vender soja e boi é a melhor opção econômica para o Brasil é uma coisa tão burra.  Se qualquer um pensar a longo prazo, verá que no futuro as maiores riquezas serão nossas riquezas naturais, e isso é o que vai colocar o Brasil em um lugar de muita importância num âmbito internacional.

A produção artística de Nina também está em constante metamorfose.  

Minha formação propiciou meu conhecimento em diversas formas de expressão plástica, e minha curiosidade me tornou uma pessoa relativamente bem informada.  Busco fazer coisas bonitas que têm importância, seja lá em que tipo de trabalho.  Tento ir a fundo naquilo que estou me debruçando e trazer novas soluções para as problemáticas que inevitavelmente possam surgir.

Por ter sido obrigada a virar empresária (e fazer de tudo um pouco), acabo pensando em todos os aspectos da execução de um projeto, mesmo que eu não seja a pessoa a exercer todos os papéis.  O papel de que eu realmente gosto de ter é de agente criativa de transformação, e isso eu levo para tudo que eu faço, seja como designer, ilustradora, empresária, artista, cenógrafa ou educadora.

As ilustrações que fez para a Matilda são uma pequena mostra de todo seu talento como artista. Em março, Nina colocou toda força feminina nas ilustrações feitas especialmente para as mulheres e, utilizando as fotografias de Mila Petrillo, colaborou também com as ilustrações para do Dia do Índio, em abril.


Nas ilustrações que faço para a Matilda tento trazer um pouco dessa busca pela transformação no universo da publicidade.  Me identifico com a forma como a agência cria conteúdos para pessoas de verdade, olhando para as pessoas para entender o que querem e o que sonham.  O fato de me chamarem para fazer essas peças diz muito sobre os valores da Matilda.my, e fico muito feliz por ter essa oportunidade de tocar as pessoas com meus desenhos e colagens.  Decidimos sempre incluir um poema no post, para valorizar a poesia da língua portuguesa e também para dar mais uma camada de significado para o que estamos tentando dizer. 

Na verdade, Nina, somos nós que só temos a agradecer!

Confira abaixo todas as ilustrações que Nina Coimbra produziu para a Matilda.my:

Fotos: Leandro Menezes e Kazuo Okubo.