*Matéria originalmente publicada na Comunidade Moto

Premiada nos festivais de Sundance e Berlim, Anna Muylaert teve grande projeção no Brasil e no exterior com o filme Que Horas Ela Volta?, de 2015 – ano em que foi escolhido para a seleção de melhor filme estrangeiro do Oscar.

O seu mais recente longa, Mãe Só Há Uma (2016), prossegue com a tendência de questionar comportamentos da sociedade contemporânea com um olhar analítico e bem humorado.

Mas o trabalho de Anna precede os recentes sucessos. Ela foi roteirista de clássicos, como o Mundo da Lua (1991) e o Castelo Rá-Tim-Bum (1995), ambos da TV Cultura, além do longa O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias (2006), do diretor Cao Hamburger.

Sua filmografia, entre créditos de roteiro e direção, é um célebre histórico que indica um futuro promissor no cinema.

Conversamos com ela sobre seus trabalhos, o cinema no Brasil, inspirações e gostos pessoais, e ao final da entrevista fomos presenteados com algumas de suas escolhas para vermos agora, disponíveis na Netflix. O papo, rico em referências culturais, você confere abaixo.

Comunidade Moto – Você é uma das mais reconhecidas diretoras do Brasil. Que Horas Ela Volta? (2015) e Mãe Só Há Uma (2016) foram sucessos. Você acredita que, enfim, o brasileiro está realmente interessado no cinema feito em casa?

Anna Muylaert – Creio que já faz um tempo que o brasileiro está interessado no cinema feito aqui, porém nem sempre se produzem filmes que sejam ao mesmo tempo populares e que façam pensar. Creio que o “Que Horas?” tinha essa qualidade, e por isso chegou a tanta gente.

CM – De Durval Discos, passando por Xingu e os dois mais recentes, qual lhe deu mais trabalho para criar e fazer?

AM – Se o assunto é roteiro, o filme que mais me deu trabalho para fazer foi o “Que Horas” , pois levei quase 20 anos trabalhando nele até chegar a uma forma simples, que considerei correta para abordar o tema.

Que Horas Ela Volta? — Divulgação

O Xingu também deu muito trabalho, pois era baseado em fatos reais, e era preciso fazer um recorte interessante que não ferisse a História e ao mesmo tempo fosse um filme. No entanto, a versão que eu fiz acabou sendo descartada, de modo que o filme não é o roteiro que eu escrevi. Ser roteirista tem dessas coisas!…

CM – Além dos seus, quais filmes e diretores brasileiros você indicaria para quem quer fazer uma imersão no cinema nacional?

AM – Vou falar apenas dos diretores contemporâneos; caso contrário, a lista seria muito grande. Sou fã da Juliana Rojas, acho uma diretora com muito estilo e tem o que falar. Gosto muito do trabalho dos pernambucanos, em especial do Kleber Mendonça Filho, que está se aprimorando a cada filme, e também do Cláudio Assis, cujos filmes sempre têm algo de novo e interessante.

CM – Quais foram os principais nomes que a influenciaram e fizeram você querer ser diretora e desbravar o cinema?

AM – Eu fui fisgada pelo cinema por causa dos grandes mestres dos anos 70, como Fellini, Buñuel, Polanski… Mais tarde virei uma estudiosa de Kubrick, e hoje posso dizer que ele é minha maior influência no que se refere à forma.

CM – Indo pras telonas: cinema europeu ou norte-americano? Por quê?

AM – Curto bons filmes, não importa de onde venham. Cada vez sou mais seletiva: só gosto de ver filme bom. Não gostaria de ter que escolher entre EUA, onde moram diretores que adoro (Paul Thomas Anderson, irmãos Cohen, Martin Scorsese, Wes Anderson, Gus Van Sant), e a Europa, de onde sempre vêm filmes muito interessantes.

CM – Há um novo filme seu à vista?

AM – Sim, mas vai demorar. Vou fazer uma comédia sobre machismo, um filme que seja divertido e engraçado, e ao mesmo tempo que nos faça refletir sobre as pequenas violências que as mulheres vivem no dia a dia.

CM – Indique cinco filmes ou séries da Netflix do seu coração para os nossos leitores, por favor.

Curti as séries Mad Men e Narcos – achei bem feitas. Gostei do documentário Mad Dog (2014) sobre o Gaddafi. Tenho revisto filmes como Tudo Sobre a Minha Mãe (1999) e A Pele Que Habito, de Almodóvar. Agora estou vendo The Crown (2016).

Tudo Sobre a Minha Mãe — Divulgação