Em outubro de 2012, a carta de um grupo Guarani-Kaiowá promoveu um movimento inédito de apoio às aldeias indígenas nas redes sociais. Comovidas pela ordem de despejo dos índios e consequente reintegração de posse a uma fazenda produtora de cana, as pessoas começaram a mudar seus nomes de usuário para Guarani-Kaiowá. Essa manifestação de solidariedade ganhou tanta relevância que fez com que o congresso e a bancada ruralista recuassem da decisão, mesmo que timidamente.

Mais de 30 anos antes desse episódio, o diretor Vincent Carelli já registrava a grande marcha de retomada dos territórios sagrados Guarani-Kaiowá. Nesse tempo, com os relatos sucessivos de massacres e os conflitos de forças desproporcionais, o material foi ganhando ainda mais importância e complexidade. O resultado disso é o documentário Martírio, feito em colaboração com Ernesto de Carvalho e Tita.

De forma densa e aprofundada ao longo de 2h e 42 minutos de filme, Carelli mostra que essa guerra não é exclusiva da aldeia e é constante em todo o país. Se não são fazendeiros que ameaçam e matam, a violência parte de garimpeiros, madeireiros e até mesmo de ações encabeçadas pelo governo em nome do “progresso” — o que desrespeita a Constituição e a forma como o povo indígena vive e usa a terra.

Totalmente envolvido com a causa, o diretor conta que fazer o filme era, muito mais que um desejo, uma necessidade. “Fazer Martírio se tornou uma compulsão necessária para mim, que tenho a vida atada à deles, e para Ernesto e Tita, que me acompanharam nessa jornada”.

 

O momento de lançamento do filme não poderia ser mais propício, com as constantes críticas de líderes indígenas à indicação do pastor evangélico Antônio Toninho Costa como presidente da FUNAI. Em entrevista para a BBC, o político declarou não se opor à evangelização dos índios e defendeu a criação de um programa para colocá-los dentro de um sistema produtivo e adequação ao mercado.

Eduardo Viveiros de Castro fala com clareza e sintetiza a questão em sua introdução para o poema Totem, de André Vallias:

“Quando todos — todos, isto é, todos aqueles que dizemos ‘todos’ como um grito de raiva e de guerra — passaram a se assinar ‘Fulano Guarani Kaiowá’, era como se o Brasil tivesse descoberto outro Brasil. Um Brasil que sempre esteve lá, que estava e que continua lá. Ou melhor, que está aqui, que é daqui. Os Munduruku são daqui. Os Xavantes são nosso parentes. 

Os Kaiowá somos nós.

Os índios não são ‘nossos índios’. Eles não são ‘nossos’. Eles são nós. Nós somos eles. Todos nós somos todos eles. Somos outros, como todos. Somos deste outro país, esta terra vasta que se vai devastando, onde ainda ecoam centenas, milhares de gentílicos, etnônimos, nomes de povos, palavras estranhas, gramáticas misteriosas, sons inauditos, sílabas pedregosas mas também ditongos doces, palavras que escondem gentes e línguas de que sequer suspeitávamos os nomes. Nomes que mal sabemos, nomes que nunca ouvimos, mas vamos descobrindo.”

Neste dia 19 de abril, nossa recomendação é assistir ao filme, conhecer, aprender as diferenças e estudar formas de um convívio coletivo com base no respeito. Como bem afirma Carelli, “a cidade está muito distante das questões indígenas, apesar de estarem cada vez mais presentes na cidade”.

Que a obra nos sirva para reavaliar os conceitos sobre os povos originários do Brasil e nos conscientizar de como podemos cobrar dos governantes políticas públicas que dão visibilidade às suas causas.

Martírio está em cartaz em diversos cinemas do Brasil. Clique aqui para ver a programação completa.

Por Maurício Coronado