Situada entre a Avenida Paulista e o centro antigo, a região do Baixo Augusta é conhecida como uma das mais heterogêneas e democráticas da cidade de São Paulo. A fama não veio à toa: as mesmas ruas que abrigam baladas, bares, espaços criativos, lojas e brechós descolados convivem com vendedores ambulantes, moradores de rua e puteiros icônicos — resistindo ao atual processo de gentrificação (chegada de novos moradores com maior poder aquisitivo) e a crescente especulação imobiliária na área.

Por ser um ambiente tão diversificado e conectado com o novo, a rotatividade de negócios é grande. No entanto, uma loja permanece incólume em meio às mudanças constantes do local: a Ropahrara Moda Exótica, que neste ano completa 20 anos de existência.

Especializada em roupas sensuais, a marca atende um público tão variado quanto o lugar em que está inserida, incluindo garotas de programa, jovens do rock, drag queens, travestis e casais a fim de dar uma apimentada no relacionamento. Além disso, já teve suas peças estampadas em editoriais de revistas de moda e looks em cena nas grandes novelas da Rede Globo.

Por trás da Ropahrara

Com seus brilhos, plumas e manequins em poses ousadas, a vitrine chama atenção por si só. Não que não existam outros empreendimentos similares nos arredores, mas a Ropahrara aguça a curiosidade pela relação do nome com os modelitos nada convencionais.

A alcunha foi dada por Lúcia Helena da Silva, idealizadora da marca que, além de administrá-la, também é responsável pela criação de boa parte das peças. “Sempre me interessei pelo Oriente, o deserto, Israel… A palavra Ropahrara veio quando estava ouvindo música de dança do ventre. Foi como um sopro divino. Um insight. Um grito. Nasceu gritando mesmo”, conta.

Na telinha: Ropahrara usada por personagem da novela “A Regra do Jogo” — Reprodução: Rede Globo

Essa atração pelas arábias foi despertada ainda na infância. Graças à sua pele negra e às trancinhas naturais que usava na escola católica, um padre a chamou, em tom de brincadeira, de Rainha de Sabá. A partir daí, Lucia mergulhou na mitologia da personagem e se apropriou de todo o mistério e fascínio que a envolve — tanto para a construção de sua persona quanto para a narrativa da marca.

O sonho de ter sua própria confecção de roupas femininas com modelos exóticos foi tomando forma aos poucos. “Não sou costureira, estilista ou modelista. Sentava na máquina de costura e tentava fazer o que estava na minha cabeça. Eu queria criar roupa rara, mas não sabia o que ia acontecer. O comum não me interessa, tem que ter ousadia”.

Atualmente, Lucia conta com um bom time de profissionais e tenta manter uma certa distância da parte criativa, já que acredita que seu excesso de originalidade pode atrapalhar no dia a dia. “Não visito quase nunca a oficina de costura, pois com certeza irei inventar uma manga diferente, um decote, vou deixar mais curto… seria uma loucura!”, completa com bom humor.

Fetichismo em alta

Campanha ss17 da Balenciaga

A relação entre fetichismo e moda vem de longa data, e anda mais atual do que nunca. Vinil e spandex ganharam status de luxo em alguns dos desfiles mais importantes da semana de moda internacional, como Balenciaga e Dior.

E o que falar da Balmain e seus looks vulgar-chic que são objeto de desejo entre as fashionistas? O jornalista Vitor Angelo, em 2009, fez a mordaz comparação entre a grife francesa e a Ropahrara. “Eu acho a Balmain vulgar, com a vantagem que eu não tenho nada contra a vulgaridade. Aliás Balmain é muito Ropahrara Moda Exótica, com a vantagem que a Ropahrara é mais autêntica e barata!”.

 

O legado

Se há alguns anos as roupas sensuais carregavam o estigma de “roupa de puta”, hoje, com o movimento de empoderamento feminino, esse conceito vem sendo questionado e desmistificado (e desde quando puta é algo difamatório?). A Ken-gá Bitchwear — marca de moda praia cheia de glamour — é um bom exemplo disso. A origem do nome vem justamente da ideia de subverter a conotação pejorativa da palavra “quenga” e transformá-la em algo empoderador. Maiôs ultradecotados, sungas unissex e calças que deixam parte do bumbum à mostra são algumas de suas criações.

Imagens via Instagram @kengabitchwear

Esse momento de grande aceitação do “obsceno” no universo da moda não poderia ter sido melhor aproveitado pela Ropahrara. A loja acaba de inaugurar uma nova unidade no bairro de Moema e mostra fôlego de sobra para comemorar mais 20 anos. “Estamos expandindo, mas meu coração é na Augusta. A Ropahrara é a cara da rua e nossos clientes são demais, ótimos”, finaliza.

Por Aline Botelho