Botecos, carrinhos de som na rua, festas de peão, festinhas descoladas no apartamento de amigos e o seu Spotify. O que esses lugares tem em comum? Provavelmente em todos eles, em algum momento, vai tocar um ou mais hits do feminejo.

Talvez você não esteja familiarizado com o termo — um sagaz portmanteau de feminino e sertanejo — que descreve perfeitamente o espírito do gênero.

Alguns nomes que você já deve ter ouvido (e provavelmente se confundido): Maiara e Maraísa, Marília Mendonça, Naiara Azevedo, Simone e Simaria.

O polígono sagrado dos hits

Elas estão nos programas de tv, rádio e fazem shows por todo o Brasil, como todo bom fenômeno popular. Mas o que chama mesmo atenção é a maneira como suas composições ganharam espaço em playlists que antes eram exclusivas de artistas gringos. Há poucos anos atrás, entrar numa balada de música pop e esperar que uma música sertaneja entrasse no setlist seria uma ideia risível. Hoje não mais. E isso levanta a questão: porque públicos que nunca antes prestavam atenção nesse estilo musical agora cantam a plenos pulmões hits como “Infiel” e “50 Reais”?

A primeira vez em que ouvi falar de uma dessas mulheres foi ano passado, durante uma pesquisa sobre os artistas brasileiros com mais visualizações no YouTube. “Marília Mendonça”, o nome que ocupava a primeira posição da lista, me soara completamente desconhecido. Não era uma Ivete Sangalo ou Wesley Safadão, figuras familiares do mercado fonográfico mainstream. Mas não demorou muito para que na primeira audição de Infiel eu me sentisse impactado pelo vozeirão grave e maduro de Marília, à época com seus impressionantes 19 ou 20 anos.

É difícil dissociar o sucesso delas da onda do sertanejo universitário que invadiu o país nos últimos anos. Simone e Simaria, antes conhecidas como “As Coleguinhas” eram vocalistas do cearense Forró do Muído, e sua migração para o gênero garantiu a dominação nacional. Aposto que você já ouviu falar do “violão e o nosso cachorro”, sucesso das  irmãs. Uma recente parceria com Anitta é mais um indicador da invasão pop da dupla. Em tempo, até a própria Wanessa (novamente Camargo) largou o eletrônico para tentar lucrar em cima desse mercado.

Olha só o tamanho desse palco!

Mesmos temas, outras vozes.

Desde Inezita Barroso com suas modas de viola até os chororôs de Roberta Miranda, o sertanejo fez sucesso em vozes femininas, porém com um outra abordagem. Paula Fernandes, um estouro do começo dessa década, fez sucesso com seu bucolismo, rendas e vestidos de princesa em açucaradas canções românticas; mas que em nada têm a ver com a nova safra de cantoras do feminejo.

Elas cantam vivências na mesa do bar, falam sobre sexo sem pudores, assumem traições e colocam os homens que não andam na linha pra correr. São histórias que qualquer um pode se relacionar. E com ineditismo num nicho dominado pelos homens, dessa vez são elas que se permitem errar e enfiar o pé na jaca, sem medo de serem felizes. Não são temas novos: há anos os Brunos e Marrones dormem na praça e se enchem de cachaça, mas agora, com outras porta-vozes, fica mais fácil para as mulheres se sentirem realmente na linha de frente e para que públicos novos compartilhem os dramas.

“A gente não se esconde. A gente quer ser realmente quem somos, e acabou.
E mostrar pra todo mundo que para se estar no palco a gente não precisa ser uma princesa, uma boneca de porcelana. Somos iguais àquelas que vão nos nossos shows.”

— Marília Mendonça, em descontraída (e desconstruída) entrevista a um programa de auditório.

 

 

Novos públicos

“Por que vocês acham que o feminejo teve uma aceitação de público tão diversificada?”. Como bom pesquisador de Facebook, fiz a pergunta na minha timeline, e as respostas foram das mais óbvias a pequenas teses de mestrado. Minha audiência — notadamente homens gays entre vinte-e-poucos e trinta-e-poucos anos — deixou claro as razões pelas quais essas moças dividem espaço com as cantoras da música pop americano com seus hinos de volta por cima e amor-próprio.

Em poucas linhas: sendo historicamente um ambiente machista, hostil para as diferenças, a música sertaneja era, em geral, evitada por quem não se sentia representado ali. Para esse público, já habituado a ter devoção por divas, as canções têm uma aceitação muito maior do que se interpretadas pelos tradicionais garanhões da música. É uma identificação em outra minoria. A partir do momento que ela se empodera, convida e inspira outras a fazerem o mesmo.

Feministas?

Radicadas na Nashville brasileira, Goiânia, as irmãs Maiara e Maraísa deixam claro que sabem quem são e o que querem: mulheres fortes e independentes que não se conformam com os padrões de beleza. Mas apesar da postura de protagonistas em suas músicas e entrevistas, as artistas rejeitam a etiqueta do feminismo — uma hesitação que soa mais como uma estratégia de relações-públicas. Mas isso é papo pra quem está mais habilitado a falar.

Se essa é uma onda que veio pra ficar, uma coincidência ou o impacto que essas meninas vão deixar na cultura e na indústria fonográfica, só o tempo dirá. Uma coisa é certa: enquanto tiver feminejo, vai ter homem safado tomando bronca. E pode ficar com o troco.

Abrindo o coração

Canções que você precisa ouvir agora para entender na prática o que isso tudo representa.

 

Por Caio Alves