A psicóloga Anand Pretti tinha 12 anos quando escreveu para a caixa postal de Léo Jaime narrando o começo de seu primeiro namoro. Na época, o cantor estava iniciando sua carreira jornalística com a coluna Fim de Papo, na revista Capricho. “Ele foi um fofo, me deu dicas superlegais e trocamos cartas por um tempo, parecia um irmão mais velho que eu não tive (apesar do meu amor platônico por ele)”. Hoje, aos 38 anos, ela lembra dessa fase da vida com saudosismo.

Histórias como essa eram uma constante na vida de centenas de adolescentes que iam às bancas semanalmente atrás da edição mais nova de sua revista teen preferida. “A Carícia mesmo tinha edição que eu comprava no dia que lançava, juntava o dinheiro e guardava para não correr o risco de ficar sem”, lembra Tatiane de Paula. Com 30 anos, a analista de comunicação conta que ainda mantém a rotina de ir à banca para comprar a revista Glamour — indo contra a tendência cada vez maior de consumo online, em detrimento ao impresso.

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Segundo dados do Instituto Verificador de Comunicação (IVC), os principais impressos do país tiveram queda de 15% no primeiro semestre de 2016. Neste mesmo ano, a Folha de S. Paulo anunciou que sua circulação digital ultrapassou a impressa.

 

Uma das muitas frases feministas espalhadas pela redação da Capricho

No universo das revistas adolescentes, um grande marco dessa nova fase do jornalismo brasileiro foi o fim da edição impressa da Capricho, primeira publicação voltada para o universo feminino da editora Abril, lançada em 1952, e líder de seu segmento. O encerramento aconteceu em 2015, junto com uma profunda mudança em sua linha editorial, alinhada aos novos tempos de ativismo nas redes sociais. “Havia uma demanda muito grande para entender o que estava acontecendo com a revista. Questionavam se a gente estava surfando uma onda, fazendo tudo isso por oportunismo”, afirma Thiago Theodoro, redator-chefe da Capricho responsável pela transição.

De fato, o veículo deu um grande salto em termos de linguagem. Chamadas como “Eles adoram meninas de cabelo solto: o que os meninos amam e odeiam no nosso visual” e “Como perder a barriga e se livrar dela para sempre” deram lugar a posts irônicos do tipo “10 motivos para você NÃO usar batom vermelho” e campanhas a favor da “beleza real” como o #bodypositivity, que incentiva as meninas a se amarem do jeito que são.

Para Thiago, a mudança foi natural: “Nós chegamos de uma maneira coerente e não impositiva, fazendo um retrato do que é o nosso tempo. Não tivemos a arrogância de achar que a nossa fórmula era perfeita. O que a gente faz de perfeito é conversar com essas meninas e prestar atenção ao nosso redor”, analisa. Quando questionado sobre ser um homem à frente de uma publicação feminina, ele responde: “Sempre tive muitas referências femininas, mas tenho consciência de que não sou mulher, e que tem muitas coisas que não tenho autoridade para falar. Mas, ao mesmo tempo, participei da construção da história da Capricho por 10 anos e, como jornalista, sei me colocar na posição de ouvinte.”

Polêmicas

 Antes da sua “fase empoderada”, a Capricho passou por uma série de polêmicas por conta de postagens que não faziam mais sentido para um público cada vez mais engajado em questões sociais e feministas. De lá pra cá, ficou claro que as leitoras, mais do que nunca, estavam no comando, cobrando uma postura consciente por parte de quem escreve.

Um bom exemplo disso foi a matéria “Menina para namorar e menina para ficar: quais são as diferenças?”, publicado no blog “Garotos Contam”, em 2013. Após ser bombardeado por comentários negativos nas redes sociais, por colocar em discussão como uma menina deve se portar aos olhos dos rapazes, o post foi apagado. A repercussão negativa fez ainda com que a publicação repensasse o blog “Garotos Contam”, que acabou sendo extinto.

Via consciencia.blog.br

A revista Atrevida, publicada mensalmente pela Editora Escala, também virou assunto nas redes sociais graças aos comentários negativos em postagens pautadas por opiniões masculinas. Uma das matérias mais rechaçadas foi a “Makes que os garotos não curtem nas meninas”, publicada no site em maio de 2014.

Via atrevida.uol.com.br

As reações deixaram claro que esse tipo de publicação não seria mais aceito sem questionamentos. Hoje, a seção “Boys” do site da Atrevida se limita a listas e GIFs dos gatos do momento.

Mesmos assuntos, diferentes abordagens

Para além das postagens polêmicas, é importante ressaltar o papel que essas revistas sempre tiveram na formação das adolescentes. “Eu li Querida e Capricho dos 10 aos 14 anos, e minha relação com elas era de amizade. Aprendi muitas coisas, na teoria: beijar, usar absorventes e a refletir sobre minha personalidade quando fazia aqueles testes que vinham em todas as edições”, revela Anand. “Sempre tive um diálogo aberto com meus pais, mas nas revistas eu também aprendia sobre coisas que tinha vergonha de perguntar e via muito isso nas minhas amigas que tinham diálogo familiar zero”.

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Ciente deste papel educativo, Thiago afirma que a Capricho sempre manteve uma relação de franqueza com as leitoras. “Estávamos respondendo aos questionamentos delas. Era a melhor forma de fazer aquilo? Acho que não, mas estávamos respondendo perguntas que existiam. Dúvidas sobre sexualidade, por exemplo, continuam existindo, o que mudou foi a abordagem. Se antes a gente fazia uma matéria com a chamada ‘Sou lésbica, e agora?’, hoje a chamada seria: ‘Sou lésbica, e daí?’ São maneiras diferentes de falar sobre os mesmos assuntos ”, pondera.

Os debates promovidos pela Capricho em sua página do Facebook no Dia Internacional da Mulher, a exemplo do “Feminismo nas escolas: os coletivos organizados por garotas”, reforçam seu novo posicionamento. “As adolescentes e jovens mulheres são quem mais ensinam coisas para o mundo hoje em dia, elas trazem novas visões, e representam 40% da produção de conteúdo no Youtube. Se você não perceber essas movimentações e mudar antes, alguém vai fazer no seu lugar e você vai ficar pra trás”, completa Thiago.

Essa evolução na forma de se comunicar com adolescentes já é uma realidade fora do Brasil, com exemplos como a Rookie Mag — pioneira em inovação no segmento — e a Teen Vogue — que foi bastante elogiada por sua cobertura política de qualidade em 2016.

Anand comemora a transformação: “É bom saber que mudou. Tenho orgulho dessa nova geração que cobra e luta pelos seus ideais”.

Por Aline Botelho