Camila Rocha nasceu em 1981 no interior da Paraíba. Filha de uma família de funcionários públicos, ela conta sempre ter sido uma criança tímida e solitária. Seu amor pela música, no entanto, herdado do pai professor e músico, sempre esteve muito presente em sua vida. A menina quieta, que se exilava em livros, desenhos e canções, lembra-se de compor desde quando aprendeu a ler e escrever.

À margem da competição que existia entre as meninas de sua idade, Camila sempre ficou meio de fora das preocupações das garotas da sua idade. Diz que seus principais momentos de alegria entre a infância e a adolescência vieram da atenção que despertou nos colegas por seus feitos artísticos. Com certeza, uma prévia daquilo que ainda estava por vir.

Ainda muito jovem, ela se casou e teve filhos.  Não foi fácil. A relação abusiva com o pai das crianças não dava trégua nem durante os períodos de gravidez. Depois de muito sofrimento, a quase menina mãe de três filhos resolveu se libertar do parceiro abusador e voltou para a casa da mãe.

Apesar de serem muito diferentes, Camila conta que o papel de sua mãe é importantíssimo no cotidiano da casa e na criação de seus filhos, que hoje têm 14, 15 e 16 anos. Ao perguntarmos se ela sente falta do papel masculino em seu ambiente familiar, diz se sentir na verdade aliviada.

Eu perdi a hora, perdi o agora, perdi o por do sol, perdi a aurora. Perdi meus nervos, os meus desejos, perdi o pedaço que me prendia lá fora. Perdi meus ossos, minha antiga vida, nesses destroços, nessas feridas. Eu perdi o sangue que fervia com paixão, perdi a vontade de pegar em qualquer mão. Perdi o apego, aprendi a dizer não. Se for o acaso eu prefiro a solidão, e não aceito que tratem com desprezo no jogo da ilusão eu já paguei meu preço, perdi a vontade do mundo que conheci. Mas considero vou ficar mais um ‘tiquim’. Com tudo isso, gosto um bocado de mim. Tô me esforçando pra gostar até o fim.

O rap apareceu em sua vida durante a adolescência. Ainda garota, ela se encantava com as rimas politizadas de Racionais MCs e Planet Hemp, mas ainda não havia encontrado seu lugar de fala (ou de rima). Apesar de o preto e o pobre serem o foco das músicas, ainda se falava pouco da mulher e, quando se falava era sempre de forma machista.  Em 2007, contudo, ela conheceu a cena local de João Pessoa e começou a se fazer presente, começando a consumir e dialogar de verdade com a cultura hip hop.

Mas é claro que esse não foi um percurso só de flores. Camila sempre ralou muito para dar conta de tudo. Dentre os trabalhos que fez para garantir o sustento da família enquanto descobria o rap, diz já ter sido fiscal de obras, recepcionista de hemocentro e operária em fábrica de emborrachados (quando diz ter sido explorada ao ponto de adoecer). Então, já mais madura, aos 26, Camila Rocha encontrou de vez sua voz no rap.

A MC se diz feminista e seu discurso é desse lugar. “Me utilizo dele pra aprender a me autogerir. Pra mim, o feminismo acontece em mim. Estou em constante metamorfose. A forma como eu uso esse empoderamento é na rima. Nem sempre falo especificamente sobre pautas feministas nos conteúdos das letras, mas continuo sendo uma mulher abordando um tema, exercendo seu direito de fala”.

Depois de um tempo produzindo sua música sozinha, ano passado Camila se juntou ao coletivo de mulheres Sinta a Liga Crew. O grupo é formado por MCs, dançarinas e grafiteiras e divulga a voz das mulheres na cena hip hop do Nordeste.  Juntas, elas vêm ocupando o espaço antes inexistente de mulheres no rap, sempre reforçando que a mulher tem de ter voz na periferia e, é claro, também no mainstream.

Me disseram pra ser uma dama, não me deram valor, mas um preço. O que faço com essa cigana que não sabe encontrar o endereço? Adereços tão caros pra fama, cuido da alma enquanto apodreço. É preciso ter fé e ter gana pra aprender a vencer o preconceito. Mas sobre isso também não ha nada de novo não…

Na verdade, mulher tem de ter voz onde ela quiser rimar. E ponto.