Acho que a melhor maneira de começar essa conversa é deixando de lado a moral e os bons costumes. Cada um sabe de si, e faz o que bem entende. Que a leitura, daqui para a frente, seja livre de julgamentos.

Pondo em perspectiva, o prólogo.

No Brasil, vivemos uma dicotomia de valores: enquanto alguns comportamentos são publicamente condenados ou tabus, no apagar das luzes, todo mundo se dedica às mesmas atividades rechaçadas. Não é à toa que somos o país que mais mata as travestis e mulheres transexuais no mundo — e o que mais busca por pornografia com a imagem delas na Internet. A falta de diálogo tem resultados fatais, e com o uso de substâncias ilícitas não é diferente.

Independentemente da guerra às drogas (um ponto importante que precisa de atenção especial) e do conservadorismo que envolve o tópico, o consumo é irrefreável, não demonstra perder o fôlego. Desde que o mundo é mundo e as pessoas têm consciência, alterá-la é parte da nossa cultura. Infelizmente, essa prática, quando indiscriminada, se torna uma ameaça: é como dar um carro na mão de uma pessoa que nunca aprendeu a dirigir, um risco para o motorista e para as pessoas à sua volta. Entender essas substâncias — efeitos, dosagens, interações — é essencial para uma política eficiente de redução de danos.

Em países onde há abertura maior para se conversar sobre isso, iniciativas públicas e privadas são uma realidade. Alguns festivais na Europa, seguindo essa onda de diminuir os prejuízos, disponibilizam kits de testagem dos químicos, uma atitude eficaz que tem minimizado as ocorrências de pessoas que se dão mal ao “dropar” algo adulterado.

Por aqui, é difícil encontrar informações claras sobre redução de danos e testagem de substâncias, até mesmo online. Páginas de instituições religiosas ou antiquadas são campeãs no número de resultados de uma simples busca no Google.

Um dos poucos projetos na internet brasileira que oferece um diálogo livre e aberto é o excelente Que Droga!?. Uma das fontes do texto que segue essa introdução, este site independente é mantido com ajuda de doações. Suas páginas, repletas de comentários com dúvidas pertinentes, são um indicador do alto número de pessoas carentes de espaços onde se sintam confortáveis para aprender sem represálias. Dessa necessidade, decidimos falar sobre segurança e práticas cautelosas para o uso de entorpecentes.

O conteúdo desse artigo não substitui de forma alguma a opinião médica ou técnica. O intuito dessa publicação é reduzir potenciais problemas causados pelo uso indiscriminado de tóxicos. O único responsável pela sua saúde é você mesmo.

  1. Não aceite doces de estranhos.

Garantir a procedência do que você usa é uma tarefa hercúlea. Adquirir de uma fonte sem qualquer referência pode não dar efeito nenhum — ou um efeito indesejado. Em festas, por exemplo, há muitos oportunistas vendendo drogas falsas ou aplicando golpes como o “boa noite cinderela”. Pergunte aos amigos, procure saber se alguém já comprou e teve uma boa experiência com o fornecedor. 

E sempre que alguém te oferecer algo — seja seu amigo ou não — pergunte do que se trata antes de mandar para dentro. No final das contas, você é a única pessoa em que pode confiar.

 

  1. Entenda os seus arredores

Saber onde e com quem você está são itens essenciais na hora de mexer com seu estado de consciência. Algumas substâncias podem te levar a acreditar que você está no controle da situação, o que nem sempre é verdade. Tenha um panorama das ameaças que o ambiente pode oferecer: às vezes a brincadeira não vale a pena no lugar errado e com uma companhia não confiável. Ninguém quer acordar no meio-fio.

 

  1. Entenda você mesmo, questione-se.

Pode parecer autoajuda barata, mas explico: procure entender como você reage a cada droga. Entenda seu tempo e se questione sempre se está tudo bem. Antes de tomar decisões impulsivas como aumentar uma dosagem ou misturar as bolas, se pergunte se é mesmo necessário. Usar uma coisa por vez te ajuda a compreender cada efeito e como lidar com ele.

 

  1. Easy, tiger.

Ao sair de casa, leve só o que for consumir, e já pré-estabeleça uma quantidade máxima para aquele rolê. Não ultrapasse o estipulado. Overdose parece uma ideia longínqua, mas está a apenas um descuido de distância.

 

  1. Alquimia só para alquimistas.

Tendo entendido o efeito que cada droga tem no seu corpo, é importante saber categorizá-las entre depressoras, estimulantes do sistema nervoso central e alucinógenas. O equilíbrio é delicado:

Usar uma droga estimulante (como cocaína ou ecstasy) enquanto se bebe álcool, por exemplo, pode fazer com que você ingira uma quantidade muito maior da bebida do que normalmente faria, uma vez que efeitos do álcool são mascarados. Isso pode ser nocivo para sua saúde e te garantir, no mínimo, uma bela ressaca no dia seguinte.

Juntar um alucinógeno com um estimulante pode disparar ataques de ansiedade e pânico. Conheça seu histórico médico e evite esse combo caso haja precedentes.

Em resumo, misturar requer conhecimento de causa e uma clareza em relação aos seus objetivos. Quando você toma um remédio para amenizar uma dor de cabeça, há um propósito claro: amenizar a dor de cabeça. Com outros entorpecentes não é diferente. Cada efeito é único, e é importante saber o que você quer para si.

 

É muito difícil saber a pureza do que está sendo usado. Doces, por exemplo, podem conter anfetaminas, e além de alucinógenos, se tornarem também estimulantes. Maconha ou K também podem dar a impressão de viagens com alucinações. Em geral, quando se trata delas, nada é preto-no-branco.

  1. De bem com a vida

Não está num dia bom? Está triste, ansioso? Ficar de boa e não tomar nada é a pedida.  Alterar a química do cérebro em momentos de vulnerabilidade pode piorar sua situação, principalmente no uso de alucinógenos e drogas que mexem com sua liberação natural de endorfinas. Fuja da bad!

Em geral, estar saudável é a recomendação antes de qualquer aventura com aditivos. Pessoas com predisposição a doenças como esquizofrenia, por exemplo, podem ter viagens muito ruins quando alteram a cabeça. Cuidado é sempre necessário. Quando se fala de condições psiquiátricas em geral, o acompanhamento profissional é imprescindível.

 

  1. O que vende na farmácia não fica de fora.

Os medicamentos que você compra na farmácia — com ou sem receita — também são drogas. Assim como o álcool, cafeína, taurina e outras substâncias populares e legalizadas.

Combinar o uso dessas com outros tóxicos requer atenção. Se não tem certeza do que vai dar, evite. Excessos podem sobrecarregar seu fígado e coração, além de outras consequências perigosas. Se fizer uso de medicamentos controlados, procure orientação médica antes de qualquer coisa.

 

  1. Busque conhecimento.

Refletindo nas sábias palavras do ET Bilu, procurar informação é essencial.

Seja curioso, informe-se e busque ajuda de profissionais. Perguntar não é vergonha, e se fazer de valentão na frente dos amigos pode ser um tiro que sai pela culatra.

O mais vulnerável é aquele que acha que sabe, e de conhecimento empírico, já bastam os sabichões das redes sociais.

Curta, compartilhe e dê joinha, o epílogo.

Em tempo, já é Carnaval no Brasil. Se for turbinar sua folia, faça-o de maneira a se manter inteiro ao final das festas. Esperamos que depois da gente trocar essa ideia, você passe a ver com mais carinho alguns hábitos, e saia vivo para contar a história. Use do seu novo aprendizado para orientar seus amigos e repasse essas recomendações para aquele bróder que sempre se dá mal no final da noite. Nesse mérito, em especial, quem avisa amigo é. Careta mesmo é ficar calado.

 

Por: Caio Alves

Bibliografia:

DROGAS E REDUÇÃO DE DANOS: Uma cartilha para profissionais de saúde;

The Vaults of Erowid;

Centro de Convivência É de Lei;

Que Droga!?