Poucas coisas são mais delicadas do que as questões que envolvem nossa finitude. Os mistérios sobre o que pode vir depois do momento em que o coração para de bater levantam questões desde que nos percebemos como seres humanos. Incertezas que influenciaram religiões e a produção cultural das civilizações ao redor do mundo. O tema está presente desde as mais antigas literaturas ao cinema e a música  da era contemporânea.

Para a ciência, porém, até onde se sabe, as consequências da partida de alguém próximo são uma experiência pertinente a quem permanece vivo: a memória de quem se foi é propriedade de quem ficou. O impacto do óbito tem muitos vieses: além da imensurável dor da perda, testemunhar a morte do outro nos relembra, afinal, da nossa própria perecibilidade, o que incomoda e traz insegurança.

Idealizar uma “vida” após a morte traz conforto para quem está entre nós, e a tecnologia, como nossa forma mais tangível de mágica, é o que se aproxima mais desse feito. Explicando: é através dela que exploramos os limites do que é possível, nos aventurando no que parece ser impossível. Quem falou isso foi o respeitado escritor e futurólogo Arthur C. Clarke, em uma de suas três leis. Seu conto “O Sentinela”, publicado em 1951, deu origem ao filme de ficção científica “2001 – Uma Odisséia No espaço” (1968).  

A ficção científica, aliás, em vários episódios ensaiou resultados que a tecnologia da vida real corre atrás: o upload dos dados do nosso cérebro para computadores, por exemplo. Um conceito que revisita a famosa citação de René Descartes: “penso, logo existo”.

Se o ato de existir é baseado na capacidade de pensar, a possibilidade de armazená-la de um jeito perene, em dados digitais, como num software, propõe um outro paradigma para nossa própria existência — que se tornaria atemporal, inorgânica e imaterial.

O Paraíso é aqui: o seriado Black Mirror (2016) sugere o upload da consciência humana para uma realidade virtual após a morte. — Reprodução: Netflix

Essas ideias são promissoras, mas preservar a consciência quando o corpo se vai ainda não é realizável — embora o cientista americano Stephen Hawking preveja que daqui a 40 anos, um espaço de tempo relativamente curto, descobriremos uma forma de ler a informação presente no cérebro, órgão que funciona de maneira similar a um computador. Somos seres analógicos com tendências digitais.

Todavia há algo que já está por aqui. Um tipo de imortalidade digital que já desfrutamos.

Nossos contemporâneos têm produzido um rastro online sem precedentes. “Deixar uma marca na história” antes da idade digital era um conceito inviável, restrito aos que protagonizaram grandes feitos. Mas com a ainda recente massificação do uso das redes sociais, na década atual, legar um registro nesse plano tornou-se uma prática quase que instintiva para os quase 50% da população mundial com acesso à Internet(1). Quem somos, como pensamos, nossas opiniões e arquivos de imagem. Tudo está na nuvem, tudo é binário, e acessível até segunda ordem.

Tão recente quanto a herança nas redes sociais é a maneira de cuidar dela. Há famílias que optam por manter a página do finado ativa (alimentando-a de tempos em tempos como um modo de guardar a lembrança), e há quem prefira honrar seus saudosos com a remoção de seus perfis da rede. O que é constrangedor para alguns pode ser reconfortante para outros.

Cada site tem um protocolo nessas ocorrências:

Facebook

É possível, ainda em vida, optar por transformar sua página num memorial, ou pela exclusão de sua conta, tendo apontado um “contato herdeiro” que administrará essas decisões e terá acesso às mensagens, além da habilidade de postar e responder a comentários.

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Twitter

O Twitter não prevê acesso à conta orfã por familiares e amigos. A menos que o usuário já tenha confiado sua senha a alguém de sua confiança, a única opção é um formulário de remoção, que pode ser preenchido por parentes.

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Instagram

Através de um formulário, é possível solicitar a remoção do perfil, ou sua transformação em um memorial — nesse caso, a conta permanece igual, apenas sinalizada como “Em memória de”, ainda que ninguém tenha o acesso de login.

Saiba mais (em inglês)

Ainda, com tecnologia existente hoje, há métodos bastante inusitados de lidar com o legado de quem partiu

Esse ano, Eugenia Kuyda, programadora russa, resgatou mensagens de texto e conversas com seu melhor amigo, Roman Mazurenko — que falecera há três meses —, para criar um robô de chat, baseado em inteligência artificial, possibilitando conversar com o amigo e receber respostas com as palavras dele, mesmo sem que estivesse lá.

Ela e Roman desenvolviam juntos esse mesmo robô, para um aplicativo de recomendação de restaurantes com linguagem natural.

Roman, rapaz típico de sua década, forneceu matéria prima de sobra, e Eugenia viu nela uma oportunidade de encarar a ausência.

Poder falar com a pessoa que melhor lhe compreendia e perpetuar aspectos de sua personalidade pareceram a solução ideal. Foi criado então o chatbot “Roman”. Uma história que parece saída de um filme futurista.

Captura de tela do app / Reprodução: Luka, Inc

Talvez, na história da humanidade, poucas revoluções foram tão impactantes quanto nossa existência em um ambiente computadorizado. As barreiras físicas têm se tornado cada vez mais desfocadas, de modo que, incontestavelmente, para além da matéria, nossa passagem pelo universo agora é igualmente digital.

A escolha entre “enterrar” os dados do falecido (assim como fazemos com os restos mortais) ou mantê-los disponíveis, aciona questões éticas, morais e pessoais.

São novos dilemas, emergentes como as mudanças culturais que eles propõem.

A única certeza possível é que num período de tantas adaptações no nosso estilo de viver, morrer também se torna diferente.

(1) Dados de 2016 (http://www.internetworldstats.com/stats.htm)

Por: Caio Alves | Matéria originalmente postada na Comunidade Moto