Dandalunda, Janaína, Mucunã, Maria, Sereia do Mar. São muitos os nomes usados para identificar Iemanjá, entidade que assume o posto de orixá materno mais conhecido e cultuado em nossa cultura, padroeira dos pescadores e rainha das águas salgadas. Não à toa, no dia 2 de fevereiro, uma multidão de fiéis e adoradores se reúnem para saudá-la no bairro do Rio Vermelho, em Salvador.

As mulheres têm uma conexão ainda mais íntima com a deidade: cada filha de Iemanjá tem sua história de identificação e devoção. Os caminhos que as levaram à padroeira dos pescadores são diversos e sempre permeados por uma ligação forte com o feminino. “O feminino de Iemanjá é maternal, eu vejo sua força e, ao me identificar como sua filha, sinto que preciso honrar esse posto e me tornar uma mulher melhor a cada dia”, conta Mariana Paiva, escritora e jornalista baiana.

Segundo a psicóloga Luiza Cravo Miranda no trabalho “O mito de Iemanjá como manifestação do arquétipo materno na psique coletiva”, a figura de Iemanjá sofreu muitos sincretismos diferentes em vários lugares do mundo, mas o que é feito com mais frequência é com a figura da Virgem Maria. Assim, por estar associada à fertilidade das mulheres e ao processo de criação do mundo, ela é a representação da Grande Mãe, com seios fartos e pele negra. Mas diferentemente da santa cultuada no cristianismo, Iemanjá apresenta uma natureza dual — boa e má, a luz e a sombra, sendo assim, por si só, uma representação d’A Grande Mãe em sua totalidade.

Baiana morando em São Paulo, Luiza conta que a Rainha do Mar passou a fazer parte de sua vida quando ainda era criança “Quando se é baiano, há uma grande chance de que a rainha do mar faça parte do seu cotidiano ou, pelo menos, do seu imaginário desde cedo.

Tenho a lembrança remota de ouvir as canções das vinhetas sobre o 2 de fevereiro da TV Aratu [canal local]. Lembro também da minha mãe sempre comprar espelhos, pentes, alfazema e rosas brancas para presentear Iemanjá no dia dela. Minha mãe dizia ‘não pode olhar nesse espelho que ele é do santo!’, relembra. “Em um determinado momento, resolvi ir conversar com a sacerdotisa de um Ilê Asé, no bairro de Itapuã, em Salvador. Desde o dia em que pisei naquele terreiro, eu converso com Iemanjá todos os dias. Tenho meus rituais. Sinto a presença dela mais forte do que a da minha mãe consanguínea, muitas vezes”.

Para Mariele Góes, fotógrafa e cozinheira baiana vivendo atualmente em Paris, sua conexão com Iemanjá ficou mais forte na adolescência, quando começou a registrar a festa do Rio Vermelho e se aproximou do Candomblé. “Não sou iniciada, mas frequento uma casa em Salvador, tenho contato diário com minha mãe de santo e participo a distância das atividades da casa”, revela. “É bem triste estar numa cidade sem mar, mas aqui tem um rio que corre para o mar, já fiz algumas oferendas no Sena. Fora isso, na minha casa tenho meu cantinho com minhas coisinhas, onde diariamente faço minhas orações. No dia 2 de fevereiro acendo uma vela e coloco algumas flores para ela”.

Se nesta data se instituiu a comemoração folclórica e cultural no estado da Bahia, nos terreiros pelo Brasil Iemanjá tem festa em datas distintas. Na sede do Ilé Àse Ojú Onirè, em São Paulo, Mãe Ana de Ogum conta que as casas de Candomblé seguem seus próprios calendários. “Aqui, a festa de Iemanjá acontece como qualquer outra festa, primeiro se despacha Exú, durante o dia tem as brincadeiras e à noite tem o canto para que as pessoas incorporem”.

Apesar de não ser filha de Iemanjá, Mãe Ana d’Ogum já iniciou muitas mulheres. Uma das histórias mais marcantes envolvendo a Rainha do Mar aconteceu quando ela ainda morava na Bahia. “Dona Nilsete, devota de Iemanjá que frequentava nossa sede em Salvador, teve um AVC no dia da festa e estava no hospital. Lá mesmo, Iemanjá — que é muito bonita por sinal — incorporou [em sua devota enferma] e dançou.” O ocorrido foi no dia 11 de março. 19 dias depois, Nilsete veio a falecer.

 

Sobre a ligação das mulheres com Iemanjá, Mãe Ana conta ainda que os terreiros mais tradicionais não iniciavam homens. Se na África o Candomblé é totalmente patriarcal, no Brasil a religião torna-se essencialmente matriarcal. “Era um culto feminino, maternal. Não só o de Iemanjá, mas o de todos os orixás. Os homens não se adaptavam. Para um homem fazer santo [o ato de se iniciar] ele teria que ir em casas menores para ter o ritual conduzido por filhas de uma das casas matrizes. Tem uma coisa de sensibilidade, né? Mas logo essa realidade mudou e existem muitos babalorixás [chefes de terreiro]”, conta com um sorriso no rosto.

Longe de ser uma expressão de exclusão, a ligação feminina com Iemanjá serve para fortalecer a sororidade. “Iemanjá é a mãe de todos nós, um dos símbolos mais fortes da maternidade na nossa cultura…Acho que para as pessoas que têm uma conexão especial com essa dimensão específica do ser mulher, é mais um motivo para se sentir super ligada a ela e às outras mulheres”, finaliza Luiza.

Odoyá!

Por: Aline Botelho | Fotos: Mariele Góes